Carla Cassidy - Lies De Amor
Something New

Um homem especial, inesquecvel! A vida pacata em 1 cidade pequena deixava Eva Winthrop ansiosa por conhecer algo novo e excitante. E conheceu - isso e muito mais -, quando Brice Maxwell, de casaco de couro e cabelo comprido, apareceu com sua motocicleta. Ele no s foi morar no apartamento ao lado do de Eva como era o novo diretor da escola onde ela lecionava! Os revolucionrios mtodos de ensino de Brice sacudiram a antiga administrao e suas normas ultrapassadas. Seu jeito irreverente deixou Eva tentada a conhecer o lado louco e alegre da vida.Se ele conseguisse tudo o que pretendia, o Estado de Oklahoma e Eva Winthrop nunca mais seriam os mesmos.

Digitalizao e correo: Nina
 
Srie Convidado (You're Invited)

Autor	Ttulo	Ebook	Data
Jayne Addison	Something Blue
	Jun-1993Elizabeth August	Lucky Penny
	Jun-1993Carla Cassidy	Something New
Sabrina Noivas 21 - Lies De Amor	Jun-1993Toni Collins	Something Old
	Jun-1993Linda Varner	Something Borrowed
	Jun-1993

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1994
Edio original: 1993
Gnero: Romance Contemporneo
 Estado da Obra: Corrigida
CAPITULO I

Nunca corte o cabelo quando estiver deprimida u aborrecida." Eva Winthrop perguntou-se por que ningum lhe dera esse conselho trinta minutos antes, quando procurara a tesoura e comeara a cortar as longas mechas. O que seria apenas um aparo das pontas partidas transformara-se numa mudana violenta em seu visual.
Ela se olhou no espelho com horror, observando como seu cabelo preto e comprido ficara parecido com um ninho de pssaros. Deus do cu, o que fizera?
Sobressaltou-se ao ouvir o tilintar da campainha. Ainda desnorteada pelo que acontecera com sua aparncia, caminhou at a porta com a tesoura nas mos.
A primeira coisa que notou no homem parado a sua frente foi o cabelo preto, que lhe chegava irreverentemente aos ombros.
O cabelo dele era, com certeza, muito mais bonito e comprido que o dela. Instintivamente Eva passou a mo na cabea.
 Esse  o apartamento para alugar?  A voz do homem era profunda e ela notou um leve sotaque de alguma parte da costa leste.
O tom msculo da voz fez com que Eva voltasse a ateno para outros atributos fsicos do estranho. Os olhos eram do azul mais claro que j vira e a camisa justa delineava os msculos bem definidos como uma segunda pele. O rosto, embora de feies cinzeladas, trazia as marcas de uma vida dura.
Percebendo que ele esperava uma resposta, Eva limpou a garganta.
	No.  a porta ao lado  explicou, apontando com a tesoura.
Ele a fitou. Foi um olhar sensual e provocador, fazendo com que Eva ficasse arrepiada.
Ele indicou o cabelo recm-cortado.
	Voc fez isso de propsito, ou foi erro do cabeleireiro?
	No entendi  ela respondeu surpresa, pensando no ter ouvido direito.
	Se quer mudar de estilo radicalmente, precisa usar roupas de acordo com o novo visual.
Ela baixou os olhos para o jeans e a blusa larga de malha, sentindo-se constrangida.
	O que h de errado com minhas roupas?  reclamou, ofendida com o comentrio.  Acho que est sendo impertinente.
	Impertinente?  ele murmurou sorrindo com malcia e deixando  mostra dentes brancos e perfeitos.  Falando assim, parece uma professora solteirona e rabugenta.
Ela arqueou as sobrancelhas, curiosa.
	O que h de errado em ser professora? Me orgulho muito da minha profisso.
Ele sorriu com um jeito maroto e caoador.
	Muito bem,  professora. Rabugenta, um pouco, talvez. Mas  solteirona?
	Isso, senhor, no  da sua conta  ela declarou, enquanto fechava a porta com raiva, esperando que o nariz dele ficasse preso no batente.
"Mas que homenzinho petulante", pensou, voltando para a frente do espelho. Esperava que o sr. Williams, o senhorio, no alugasse o apartamento ao lado para aquele grosseiro. Do contrrio, ela teria muitos problemas dali por diante.
	Falando em problemas...  resmungou, olhando para a sua imagem no espelho.
Finalmente, constatou que teria de pedir socorro profissional para remediar aquele estrago. Ligou para o salo de beleza e conseguiu convencer a cabeleireira a atend-la dentro de meia
hora.
Quando ps o p para fora da porta, encontrou o sr. Williams e o homem impertinente no ptio.
	Srta. Winthrop!  o senhorio chamou-a.  Gostaria que conhecesse seu novo vizinho.
	J nos encontramos  ela declarou.
Forando um sorriso, olhou para o senhorio e depois, disfaradamente, observou mais uma vez seu novo vizinho. Ele estava usando uma jaqueta de couro cheia de recortes que o fazia parecer um membro de gangue de jovens arruaceiros.
	Se me do licena... Estou atrasada para um compromisso  ela engrolou, dando as costas aos dois e caminhando em direo ao estacionamento, consciente de que os olhos azuis a seguiam.
Passou por uma monstruosa motocicleta, deduzindo que pertencia ao petulante.
	Querida, j lhe disse uma centena de vezes! Quando precisar de um corte, ligue para mim, v a outro salo, mas procure um profissional!  a cabeleireira aconselhou, enquanto reparava o estrago no cabelo de Eva.
Eva sorriu, contrita.
	No se preocupe, Kathy, j aprendi minha lio.
	Ouvi a mesma coisa da ltima vez  a mulher reclamou, passando creme nas pontas das mechas curtssimas.  Voc s faz esse tipo de coisa quando est deprimida. O que Colleen aprontou agora?
Eva fez uma careta involuntria ao lembrar-se da irm mais nova.
	Passei a noite toda tentando tir-la da cadeia  informou, esperando que Kathy soltasse uma exclamao de espanto, antes de continuar:  Por no estar com os documentos do carro em ordem, ultrapassar sinais vermelhos e desrespeitar a lei.
	Voc deveria t-la deixado na cadeia. Talvez aprendesse a lio  sugeriu a cabeleireira, rodeando a cadeira para ficar na frente de Eva.
	No podia fazer isso. Minha me pensa que ela ainda  um beb.
Kathy torceu o nariz.
	Uma mulher de vinte e trs anos no  mais criana.
	Pelo menos est gostando do ltimo emprego que arrumou  comentou Eva.
	Bem, j  meio caminho andado para crescer e ter responsabilidade  a cabeleireira replicou e parou de falar por um instante, pegando uma escova.  E como anda sua vida amorosa?
	Vida amorosa? O que significa isso?  Eva sorriu.  No tenho tempo para romances.
	Isso porque gasta a maior parte do tempo tentando corrigir os erros dos outros. No tem aparecido nenhum rapaz atraente?
Eva meneou a cabea com veemncia ao perceber que o primeiro homem em quem pensara diante da pergunta de Kathy fora seu novo vizinho motociclista de jeans apertado e jaqueta de couro.
Decididamente, ele no fazia seu tipo, mesmo sendo alto, musculoso e de olhos azuis brilhantes. E com um irritante ar de deboche. Mas qual seria seu tipo de homem? Parecia incrvel, mas aos vinte e nove anos ela ainda no criara na mente uma imagem exata do homem por quem gostaria de apaixonar-se.
	Como vo as coisas na escola?
Eva franziu a testa, aborrecida.
	Uma baguna. O sr. Stevens nos deixou h dois meses e uma escola sem diretor  como um pas sem governo.
	Quando chegar o substituto?
Eva deu os ombros.
	No tenho certeza. Talvez nos prximos dias. Perdi a reunio de professores onde foi avisado tudo isso.
Acha que o novo diretor vai ficar no cargo?
	Se agradar ao conselho.
	Voc quer dizer se agradar a velha sra. Worthington.
Ela  a chefe do conselho administrativo e sempre faz o que quer.
Eva lembrou-se de que havia muito tempo no questionava a posio da sra. Worthington na presidncia do conselho. Alm disso, sua irm era secretria da velha ranzinza. No diria nada que pudesse chegar aos ouvidos da sra. Worthington e prejudicasse o emprego de Colleen.
Kathy terminou o corte passando gel nos cabelos arrepiados e afastou-se para admirar o servio.
	Vou ter de deixar assim, por enquanto. No existe mais nada que eu possa fazer. Voc tem, pelo menos, um rosto bonito que lhe permite usar o cabelo to curto.
Ela virou a cadeira giratria de frente para o espelho para que Eva tambm pudesse ver o resultado de sua impacincia.  Eva estudou seu reflexo cuidadosamente. Com o choque inicial j amenizado, notou que, graas aos mgicos toques reparadores de Kathy, sua aparncia no ficara to ruim. O cabelo curto at realava seus olhos verdes.
	Meus alunos pensaro que sou outra pessoa!  exclamou, pensando na reao de sua turma de ingls, quando ela
voltasse  escola na segunda feira.  Obrigada, Kathy. Adorei o que tentou fazer por meu cabelo.
	Para que servem os amigos?  A mulher sorriu para ela.  Ligue-me no prximo final de semana. Quem sabe poderemos ir ao cinema.
Eva concordou. Ento, depois de pagar o corte, saiu do salo em direo ao estacionamento.
Sentiu o doce aroma das flores primaveris pairando no ar. Para onde quer que olhasse, encontrava muitos motivos para desejar passar o dia sem fazer nada, andando pelo parque, observando as pessoas e as cenas comuns da pequena cidade. Pawkinah, em Oklahoma, ficava mais bonita na primavera do que em qualquer outra poca do ano.
Eva gostaria de ficar admirando as belezas da cidade por mais tempo, mas prometera  me que a ajudaria a preencher o formulrio do imposto de renda e que falaria com um advogado quanto ao processo de Colleen. Alm disso, ainda faltava corrigir algumas provas de ingls, e era sua norma rgida colocar o trabalho antes do prazer.
Suspirando fundo, entrou no carro e tomou o caminho da casa da me, grata por no existir uma tesoura por perto, pois estava tendo outro mpeto quase incontrolvel de cortar o cabelo.
 Tenho de fazer alguma coisa para melhorar minha vida social  Eva murmurou para si mesma naquela noite, sentada na cadeira de plstico da lavanderia, esperando que as roupas secassem.
Pelo menos no era a nica ali a no ter o que fazer, alm de lavar roupas, numa noite de sbado. Embora no houvesse mais ningum na lavanderia, duas outras mquinas estavam funcionando. Saber que existiam outras pessoas solitrias, porm, no a fazia sentir-se melhor.
Passava a maior parte do tempo muito ocupada ou cansada para notar sua solido. Mas havia momentos em que desejava ter uma pessoa a seu lado, que compartilhasse seus sonhos e esperanas.
Por que a pessoa ideal no se mudava para o apartamento ao lado do seu? Talvez um belo mdico ou um advogado  procura de uma professora com quem se casar.
Sentiu-se empalidecer ao lembrar-se do novo vizinho. Passara o final da tarde na janela do apartamento, observando-o. Como algum podia ser to impertinente e fascinante ao mesmo tempo? Ele era atraente e parecia possuir uma espcie maravilhosa de liberdade espiritual.
Retirando mveis de um caminho alugado, ele tirara a jaqueta, expondo ombros largos e braos fortes. Eva imaginara quantas mulheres j no teriam sido envolvidas por aqueles braos, mas ela no seria uma delas, com toda a certeza. Ficara  janela um longo tempo, incapaz de desviar a ateno daquele homem que tinha a beleza de uma escultura.
Um trovo rasgou o cu, arrancando Eva de seus pensamentos perturbadores. Foi at a porta da lavanderia e olhou para cima, notando que o cu estava coberto de nuvens pesadas. Um trovo mais forte ribombou e as luzes apagaram-se. Falta de energia numa hora daquelas era tudo o que ela precisava, pensou Eva com irritao.
Tateando no escuro, andou at a mquina onde suas roupas estavam, colocou-as numa cesta e foi para seu apartamento trreo, antes que a chuva desabasse.
Tirou apressadamente as chaves do bolso e abriu a porta, dando um suspiro de alvio quando entrou, pois a chuva comeava a cair.
Minutos depois duas velas iluminavam a casa, ela vestira um pijama e sentara-se no sof.
 Ol, Fluffy  saudou a gatinha branca, que pulou em seu colo.  Qual  o problema? Os raios assustaram voc?
Continuou acariciando o animal, enquanto olhava para as provas ainda sem correo, em cima da mesa.
"Elas podem esperar at amanh", decidiu, ajeitando-se no sof. No foi capaz de impedir que os pensamentos voltassem outra vez para o vizinho de olhos azuis e fsico de esttua. "O que ser que ele faz?  mecnico? Modelo de agncia de publicidade? Ladro?"
Ela riu das prprias conjeturas. Se o conhecesse duzentos anos atrs, poderia jurar que se tratava de um pirata invadindo a cidade. Que ideia! Pawkinah nem era uma cidade costeira. Mas o homem tinha cabelos compridos e ar superior e no era difcil imagin-lo navegando pelos mares em busca de novas terras, partindo o corao de centenas de mulheres apaixonadas.
Ela se arrepiou com esse ltimo pensamento. Devia estar lendo romances demais. Ele no passava de um cabeludo arrogante com uma boca sensual. Certamente no era o tipo de homem que habitava seus sonhos.
Desejando livrar-se dos pensamentos estranhos, saiu do sof, colocou a gatinha no cho e pegou a cesta que trouxera da lavanderia. As roupas estavam secas, mas no eram as suas.
	Ah, no!  murmurou desolada.
Na escurido da lavanderia, tirara as roupas das mquina errada.
Comeou a colocar as roupas novamente na cesta, pensando em procurar o dono, mas hesitou ao ouvir o barulho do forte aguaceiro. O mais sensato a fazer era esperar que a chuva passasse, ou que ao menos diminusse.
Tirou uma cala da cesta. Era de homem, obviamente alto, de cintura quarenta e dois ou quarenta e quatro. Mas s quando pegou a camiseta lembrou-se de que vira o novo vizinho usando uma parecida.
Revirando a cesta, encontrou duas cuecas estampadas. Eram muito bonitas e Eva jamais vira cuecas de tamanho to pequeno. Comeou a imaginar como ele ficaria usando uma pea to minscula. Ombros largos, peito forte, pernas musculosas. Definitivamente, precisava parar de pensar aquelas coisas.
Naquele momento, ouviu baterem na porta.
Correu para abrir, imaginando quem poderia ser quela hora da noite. Deparou com o par de olhos azuis e brilhantes do homem que estivera ocupando seus pensamentos.
	O que deseja?  perguntou desorientada.
	Acho que est com algumas coisas minhas  ele explicou.
	Coisas suas?  Eva fitou-o, notando como ele ficava ainda mais sensual, molhado pela chuva.
Ele estendeu as mos, mostrando a cesta da lavanderia que segurava.
	E acho que essas so suas  observou, esticando o queixo para indicar as peas amontoadas.
Eva reconheceu uma de suas velhas calcinhas sem graa, de algodo, desejando, por algum motivo, que fosse uma pea sexy de renda preta.
	Ah! So, sim... Entre.
Deu, um passo para trs para deix-lo passar. A presena dele fez a pequena sala parecer ainda menor. Sua poderosa masculinidade a fascinava. No mundo em que fora educada acostumara-se a homens de terno e gravata. Em seu mundo os homens no usavam jeans apertados, camisas que marcavam o corpo e muito menos cuecas exguas e estampadas.
	Onde quer que eu ponha isso?  Ele mais uma vez indicou a cesta que tinha nas mos.
	Pode deixar em cima do sof. Como soube que as roupas eram minhas?
Ele colocou a cesta no sof e virou-se, examinando Eva dos ps a cabea.
	Tudo  muito prtico e voc me deu a impresso de ser prtica e sensata. Alm disso...  Ele pegou uma camisa bordada.  Seu nome est escrito aqui.
Eva assentiu, imaginando por que ele dissera que ela parecia uma mulher sensata. Aquilo soara quase como um insulto.
	Peo desculpa pelo incidente  disse secamente.  Acabou a luz, e obviamente peguei as roupas da mquina er
rada.
	No tem problema  ele respondeu, pegando a cesta certa e caminhando para a porta. Antes de sair virou-se para ela.  Voc sabia que seu pijama fica transparente na frente da luz?
Com um sorriso enigmtico, saiu para o ptio lavado de chuva.
Eva olhou para o pijama, observando que o homem estava certo. Mas fora um comentrio extremamente rude. No tinha educao? No tinha nenhum tato? Como ela faria para viver com um bruto daqueles morando no apartamento ao lado?
Brice Maxwell pousou a cesta da lavanderia na mesa da cozinha e sentou-se na cadeira reclinvel perto da janela. Admirou a chuva que caa e sorriu.
- Ei, co!  disse baixinho, acariciando o plo do rottweiler que colocara o focinho em seu joelho, mas com o pensamento no que acontecera no apartamento do lado.
Desde a primeira vez em que vira Eva, que fora abrir a porta com uma tesoura nas mos e um jeito nervoso, ele j sentira algo diferente.
Ela lhe parecera tensa e aborrecida, irradiando frustrao com a vida. Olhara para ele como se visse um monstro. Mas, contrariando toda a lgica, Brice sentira no ar entre os dois o cheiro da qumica mgica que s vezes parecia acontecer entre um homem e uma mulher.
Eva Winthrop... O senhorio dera muitas informaes sobre a atraente vizinha: professora dedicada, filha amorosa, irm solidria, um exemplo de pessoa.
Mas Brice vira outras coisas, muito diferentes.
Eva... a que cometera o pecado original. A me da humanidade. Com olhos da cor da grama que cobria a terra e lbios vermelhos, cheios de vida, Eva Winthrop poderia induzir facilmente um homem ao pecado.
Brice levantou-se da cadeira e parou diante da janela.
Ficara preocupado ao aceitar o cargo de diretor de escola numa cidade to pequena. Nascera e fora criado em Nova York. A mudana para Oklahoma teria de ser traumtica.
Eva... Gostaria de saber se ela era professora do segundo grau, curso do qual ele seria diretor. Caso fosse, como reagiria ao fato de ele ser no s seu vizinho, como tambm seu superior?
Brice sorriu, olhando a chuva. Tivera receio de sentir-se entediado e desestimulado mas, tendo Eva como vizinha, tdio seria o ltimo de seus problemas e ele no teria dificuldade em adaptar-se  pequena comunidade provinciana. Naquele momento, pelo menos, estava decididamente estimulado.

CAPITULO II

Na manh de segunda-feira, Margie Keller, a professora de artes, alcanou Eva na porta da Escola de Primeiro e Segundo Graus Geoffrey Worthington.
	Voc j o viu?  perguntou, alvoroada.
	Viu quem?  Eva olhou para a amiga com curiosidade, passando a pesada pasta de provas de um brao para o outro.
	Brice Maxwell, o novo...
	O novo diretor?  Eva antecipou-se.  Como podia v-lo se acabei de chegar?
Comeou a andar e Margie seguiu-a at sua sala de aula.
	Espere at v-lo!  exclamou a colega, sentando-se na borda da mesa.  No se parece com nenhum dos diretores que tivemos.  lindo! Tem o mais bonito par de olhos azuis que j vi, usa cabelo comprido...
	E cuecas estampadas  Eva murmurou.
	No entendi  a outra professora replicou, fitando-a com surpresa.
	Nada, no  Eva respondeu, sentindo-se um pouco tonta.
S podia estar imaginando coisas. Irene Worthington jamais contrataria um homem parecido com seu vizinho para ser diretor da escola.
Se eu no fosse casada, no perderia tempo em pular no pescoo do diretor  a professora de artes declarou com um sorriso malicioso, descendo da mesa.  Bem,  melhor organizar as coisas na minha sala. Vou ensinar as crianas a fazer origami, hoje. Antes que me esquea, adorei seu cabelo desse jeito.
Apressadamente, caminhou para a porta e saiu da sala.
Eva passou os minutos seguintes tentando preparar tudo para a primeira aula, mas no podia deixar de pensar no novo diretor. Era ridcula a ideia de que seu vizinho e Brice Maxwell pudessem ser a mesma pessoa. Mas por outro lado fazia sentido. Pawkinah era uma cidade pequena. No havia ningum por ali como o homem que Margie descrevera, a no ser o desconhecido que se mudara para o apartamento ao lado do seu.
"Qual  o problema?", ela se perguntou, enquanto arrumava os lpis e canetas. Que diferena faria, se seu vizinho fosse Brice Maxwell, o novo diretor da escola? Faria diferena, sim. A presena dele provocava nela sentimentos estranhos e desconhecidos. "Se j vai ser difcil conviver com Brice Maxwell no mesmo prdio, imagine o que ser trabalhar com ele!"
	Peo a ateno dos professores.  A voz de Ann Compton, a secretria da escola, soou pelo alto-falante.  Haver uma rpida reunio na sala dos professores, dentro de quinze minutos.
Ann repetiu o aviso e tudo tornou a ficar em silncio.
Alguns minutos depois, Eva andava pelo corredor, dirigindo-se  reunio. Margie saiu da sala de artes e comeou a andar a seu lado.
	Mal posso esperar at que voc conhea Brice Maxwell  comentou excitada.  E quero ver a cara da sra. Worthington, quando ela descobrir como ele .
	Ela ainda no o viu?  perguntou Eva, espantada. Ento, como o contratou?
	Voc sabe que a sra. Worthington estava ansiosa para encontrar um novo diretor. Ela explicou que, devido ao curriculum vitae dele, no havia necessidade de entrevist-lo.
Alm disso, conhece a famlia dele, gente importante de Nova York. Mas tenho a impresso de que Brice Maxwell no  exatamente o que ela imaginava.
Mesmo j estando preparada, Eva surpreendeu-se quando entrou na sala dos professores e o viu. Ele estava encostado na mquina de refrigerantes, conversando com Jeff Parker, o coordenador.
Margie suspirou audivelmente.
	Me diga se ele no  uma coisa!  cochichou no ouvido de Eva.
Ele "era uma coisa", com certeza, s que Eva no sabia exatamente o qu. Pelo menos, abandonara a jaqueta de motociclista em favor de um blazer preto e um colete cinza. A camisa branca estava desabotoada no colarinho e no havia gravata. No cortara o cabelo, mas o amarrara com um elstico atrs da cabea. E, para deixar claro que era diferente de todos os homens de Pawkinah, estava de mocassins de couro, sem meias! Nenhum habitante masculino da conservadora cidade-zinha usava sapatos sem meias.
A coisa mais interessante, porm, era que ele parecia  vontade, ignorando o fato de que todos naquela sala o estavam observando com olhos atentos.
Ele se virou, ento, e seu olhar caiu sobre Eva. Endereou-lhe um sorriso ntimo, como se soubesse que tipo de lingerie ela estava usando.
Eva sentiu um frio no estmago e rapidamente aquela sensao tomou conta de todo o seu corpo. Dominou o estranho impulso de virar-se e fugir quando viu Brice afastar-se de Jeff, caminhando em sua direo.
 Oi, Eva!  ele a saudou com aquele sotaque diferente que fazia seu nome parecer estranhamente extico.
Eva percebeu que Margie a observava com curiosidade vida.
Oi, sr. Maxwell  respondeu em tom quase seco. Seu cabelo ficou timo  ele observou sorrindo. Cortar meu prprio cabelo  meu passatempo preferido  ela replicou.  Poderia ter me contado quem era, sr. Maxwell.
	Nem pensei nisso, quando trocamos as roupas, naquela noite.
Eva quase perdeu o flego e Margie soltou um gritinho de prazer e curiosidade.
	Posso explicar  Eva dirigiu-se  amiga e olhou para Brice, que parecia estar gostando da confuso que criara.
Ele sorriu inocentemente, como se no soubesse que fornecera assunto para as fofoqueiras de planto, que teriam sobre o que falar durante um ms inteiro. Para alvio de Eva, a sala agitada ficou em silncio com a chegada da sra. Worthington e Brice no pde fazer mais estragos com sua inconvenincia.
A velha senhora entrou na sala com a dignidade de uma rainha. Seu olhar percorreu o recinto, penetrando nos pensamentos das pessoas, calando, podando quem fosse atingido. Quando ela encarou Brice, porm, a mscara de dama inatingvel caiu por terra e foi substituda por um ar de profundo descontentamento. Mas a mulher recuperou-se rapidamente e aproximou-se dele.
	Eva... Margie... Como vo?  cumprimentou as duas com ar altivo e estendeu a mo para Brice.  Voc deve ser Brice Maxwell. Vim dar-lhe as boas-vindas, mas gostaria de falar-lhe em particular, mais tarde. Quanto mais cedo compreender a filosofia e os objetivos do conselho administrativo, melhor.
Brice apertou-lhe a mo, mas Eva notou que o brilho zombeteiro sumira de seus olhos. Quando ele sorriu para a sra. Worthington, a expresso de seu rosto era cordial, mas distante.
	Acho que no ser possvel, sra. Worthington. Sendo este meu primeiro dia na escola, estarei muito ocupado para discutir filosofias de qualquer espcie. Mas procur-la ser a primeira coisa que farei amanh  ele prometeu.  Agora, se me d licena, preciso comear a reunio.
Eva percebeu a expresso de raiva e desapontamento no rosto da sra. Worthington.
	Meu Deus!  Margie sussurrou, enquanto Brice e a sra. Worthington se dirigiam para a frente da sala.  Esse no vai ser um dos queridinhos dela.
	Ele no vai ficar aqui nem um ms  Eva profetizou com segurana.
Alguns minutos mais tarde, no tinha tanta certeza. Quando Brice apresentou-se aos seus novos subordinados e comeou a falar sobre os projetos que seriam iniciados naquele ano letivo, uma onda de entusiasmo tomou conta dos professores.
Apesar da antipatia que sentia por ele, Eva tinha de admitir que, como diretor, Brice parecia competente e transmitia autoconfiana e dinamismo.
	Sinto que as coisas vo mudar  Margie comentou algum tempo depois, quando voltavam para as classes.
	E mesmo?  Eva perguntou secamente.
	No pense que esqueci aquele comentrio sobre uma misteriosa troca de roupas  Margie alertou.  Estou esperando ansiosamente por uma explicao. Que tal se fossemos tomar um caf depois da aula?
	Desculpe, mas no posso. Minha me convidou a mim e Colleen para jantar, o que significa que tenho de chegar cedo na casa dela para fazer a comida.
	No vou deixar que fuja de mim, Eva. Mais cedo ou mais tarde, ter de me explicar o que est acontecendo entre voc e Brice Maxwell.
- Nada. No est acontecendo nada entre ns  Eva afirmou com veemncia.
A ultima coisa que queria era que Margie imaginasse que havia algo entre ela e Brice Maxwell. A colega tinha o pssimo habito de contar a todos o que sabia e at o que simplesmente suspeitava.
O sinal! Temos de correr!  a professora de artes exclamou, quando a campainha, chamando os alunos, soou.
Eva afastou todos os pensamentos sobre Brice Maxwell e entrou na sala para a primeira aula do dia.
No fim da tarde, caminhando para casa pelas ruas tranquilas, Eva percebeu que nem a beleza do crepsculo conseguia melhorar seu humor e livr-la da irritao. Parecia que quanto mais fazia pela me e pela irm, menos as satisfazia. No saberia dizer quando isso comeara, mas a verdade era que se colocara no papel de me das duas. Estava gastando cada vez mais tempo e energia, resolvendo problemas que no lhe diziam respeito. Aquela noite fora a mesma coisa.
Chegara a tempo de ajudar a me a preparar o jantar, ouvindo um rosrio de reclamaes. Violet Winthrop era uma mulher baixinha de sessenta anos, grandes olhos azuis, e ar desamparado.
	Sinto-me to solitria, Eva! Voc no vem me ver com frequncia e sabe que eu preciso ir ao supermercado duas vezes por semana. Por que no me leva para comer fora mais vezes?
Continuara com a lista de queixas, como se fosse uma imperatriz ditando seus desejos, sabendo que seriam atendidos.
Ento Colleen chegara e as coisas pioraram. Eva acabara emprestando cinquenta dlares para a irm e tambm o carro, por dois dias.
	A sra. Worthington me pediu para fazer servio de rua essa semana e voc sabe que meu carro est detido. No posso pagar a multa e no quero perder o emprego  explicara a moa.
Eva tambm no queria que Colleen perdesse o emprego. Entre andar oito quarteires at a escola, por apenas dois dias, e sustentar a irm desempregada, preferia a primeira opo.
O nico momento divertido, naquele jantar, fora quando
Colleen descrevera a reao da sra. Worthington a Brice Maxwell.
	Ela ficou chocada  a moa contara, rindo.  Sabia que Brice Maxwell no usava mtodos ortodoxos onde trabalhava, em Nova York, mas no esperava todo aquele cabelo... Disse' que no acredita que ele tenha o mesmo sangue dos Maxwell que ela conhece. Acha que ele foi adotado.
Eva rira daquela ideia. Podia entender o que a sra. Worthington sentia em relao a um tipo to diferente. Pawkinah, Oklahoma, era a cidade dos homens bem-comportados e cor-retos. Algum como Brice Maxwell, andando de motocicleta e com aquela aparncia nada convencional, estava decididamente fora dos padres.
Eva suspirou de alvio, quando entrou na rua de casa. Caminhava depressa, pensando que tinha provas para corrigir e aulas para preparar. Percorreu a curta alameda que levava ao pequeno prdio de apartamentos e parou abruptamente quando viu o cachorro sentado no degrau de sua porta.
Era o co mais feio que j vira. A cabea era desproporcional ao resto do corpo e faltava um pedao numa das orelhas. Pelas cicatrizes que o bicho tinha pelo corpo, Eva deduziu que ele se envolvera em muitos combates e perdera todos.
Entrar em casa com aquele animal sentado diante da porta, era impossvel. Ela andou cautelosamente at ele e parou, encarando-o.
 V embora  ordenou, fazendo um gesto imperioso com a mo.
O cachorro no se mexeu. Nem mesmo piscou. Simplesmente fitou-a com seus olhos assustadores, rosnando baixinho.
XO! Saia da!  ela tentou mais uma vez, em vo. Perguntou-se por que, entre tantas outras casas na cidade, ele parara bem na frente de sua porta. Tudo o que ela queria era entrar, tomar uma boa xcara de ch e comear a colocar suas coisas em ordem.
Suma!  gritou, desesperada.
Naquele exato momento, a porta ao lado abriu-se e Brice Maxwell apareceu.
	Co!  ele chamou.
	Obrigada, sr. Maxwell. Eu sei que  um co. S no consigo mand-lo embora. De quem ser esse bicho feio?
	Ele se chama "Co" e me pertence  Brice explicou secamente, aproximando-se de Eva.
Espalhava o cheiro delicioso de sabonete e loo aps barba e estava sem camisa, exibindo o trax musculoso. Usava cala jeans com remendos de couro e no penteara o cabelo, que lhe cercava o rosto em mechas midas.
Por um momento Eva esqueceu tudo. Os problemas de famlia e a irritao de ver um cachorro inamistoso em sua porta evaporaram-se. Ela estava sendo invadida pelo desejo quase incontrolvel de tocar aquele corpo perfeito. A pele parecia macia, apesar de cobrir msculos fortes. Ela imaginou como seria gostoso passar os dedos por aquele cabelo farto, sentir o peito vasto comprimido contra o seu, entregar-se  fora daqueles braos.
	Eva?
A voz de Brice arrancou-a de seu mundo de fantasias. O que estava acontecendo com ela? Teria Kathy cortado no s seu cabelo, mas tambm seu juzo?
	Esse cachorro devia estar preso  ela observou bruscamente.   um monstro.
	No fale assim dele  Brice reclamou.  O co  manso.
Assobiou suavemente e o cachorro foi para junto dele, parecendo olhar para Eva com desprezo.
	Sr. Maxwell, gostaria muito que no futuro mantivesse esse cachorro longe de minha porta!  ela exigiu, furiosa.  Fiquei quinze minutos tentando entrar em meu prprio apartamento, sem poder!
- Peo desculpas. Fui tomar banho e esqueci de coloc-lo  dentro  explicou Brice, sorrindo com o costumeiro ar Eva sentiu o nervosismo aumentar ao notar as gotas de gua respingadas no corpo viril, brilhando na pele bronzeada. Respirou fundo e conteve a vontade de toc-las.
	Voc  sempre to tensa e deprimida?
Eva encarou-o, espantada.
	O que disse, sr. Maxwell?
Por que ele tinha sempre de fazer comentrios que a surpreendiam?
	Toda vez que a vejo, voc parece estressada. Aposto que os msculos de seu pescoo so duros como pedra, de tanta tenso.  Novamente o sorriso malicioso estampou-se em seu rosto.  Sou um timo massagista. Estas mos e um leo infantil fazem milagres. Quer experimentar?
	No, obrigada. Gosto dos msculos do meu pescoo exatamente como so  ela declarou, dirigindo-se para a porta.
	Sempre achei que fazer amor  timo para aliviar a tenso e afastar preocupaes.
Por um momento, Eva o fitou, incapaz de saber se o que acabara de ouvir fora somente um comentrio ou alguma espcie de convite.
	Aposto que no tem dificuldade em arrumar companhia para "aliviar a tenso"  respondeu por fim, em tom rspido.
Na verdade, sou bastante exigente.  Ele declarou e seu sorriso perdeu um pouco da malcia.  Quer um conselho? No viva to deprimida.
Quer um conselho?  ela replicou.  No se meta na vida dos outros.
Mordeu o lbio para segurar o resto das coisas que gostaria e dizer-lhe: que devia ser proibido ser exibicionista, andando sem camisa, para mostrar o fsico, por exemplo. No podia a usar. Afinal, Brice Maxwell era seu superior e ela seria imprudente se deixasse transparecer seu antagonismo.
Controlando-se com esforo, colocou a chave na fechadura, Pronta para entrar em casa.
	Espero que no fique como aquelas senhoras  ele sugeriu e Eva virou-se para fit-lo.
	Que senhoras?  ela perguntou curiosa.
	Que nunca sorriem e so to chatas que ningum consegue ficar perto delas. Acabam a vida tingindo o cabelo de azul e criando um monte de gatos.
Eva decidiu no discutir e abriu a porta do apartamento, deixando que Fluffy escapasse. A gatinha no poderia ter aparecido em hora pior.
Brice soltou uma gargalhada.
	Meu Deus! Voc j comeou a treinar para ficar como elas!
Antes que Eva pudesse responder-lhe, Fluffy passou correndo na frente do cachorro, que disparou atrs dela. Brice correu atrs de Co e Eva seguiu-o o mais depressa que pde, sem poder deixar de notar como ele corria com graa, movimentando os msculos de forma tentadora. A perseguio acabou de repente, quando Fluffy ficou encurralada entre o cachorro e a cerca divisria. Co aproximou o focinho para cheir-la e a gata, arqueando-se toda, levantou a pata e arranhou-o.
O cachorro voltou para o lado de Brice, ganindo, com o nariz sangrando, e a gata aproveitou para fugir, passando por um buraco na cerca.
	E voc tem coragem de falar mal do meu cachorro censurou Brice, fitando Eva com as sobrancelhas contradas.
 Seu gato  uma fera!
	Minha gatinha fugiu por culpa de seu horrvel cachorro!  replicou Eva, passando a mo no cabelo, num gesto nervoso.
	Gatinha?
	Fluffy  fmea, no percebeu?
	Quer que eu v procur-la?  Brice ofereceu, apontando para o lado por onde a gata sumira.
Eva meneou a cabea negativamente.
Ela voltar para casa mais tarde, quando tiver certeza de que voc prendeu esse monstro.
Comearam a voltar e Eva notou que a respirao de Brice estava ofegante.
__ Nossa! Essa foi a primeira boa corrida, desde que fugi de alguns alunos, um ms atrs  ele comentou.
Eva o fitou, curiosa.
	Voc costuma fugir de alunos?
	S quando esto com muita raiva de mim e so mais de trs.
	Onde voc trabalhou, em Nova York?
	Em uma escola no Brooklyn  ele respondeu vagamente.
	Por que decidiu vir para c?
	Queria mudanas e desafios.
Realmente, ele parecia um homem que vivia atrs de aventuras, achando divertido tudo o que Eva considerava perigoso.
	No consigo imaginar que tipo de desafios vai enfrentar em Pawkinah, mas tenho certeza de que vai encontrar mudanas, j que veio de Nova York  ela comentou, quando chegaram diante da porta de seu apartamento.
Um brilho intenso e malicioso apareceu nos olhos de Brice.
	Acredite, encontrei desafios que estou louco para vencer  ele confidenciou.
Eva sentiu o rosto ficar vermelho, percebendo que Brice no estava falando somente de trabalho. Na verdade, teve a ntida impresso de que ele se referia a ela. Mas, se aquele presunoso pensava que podia lev-la para a cama s por que tinha o cabelo comprido e viera de uma cidade grande, estava muito enganado.
	Boa noite, sr. Maxwell  murmurou e entrou rapidamente em seu apartamento.
Depois que ela se foi, Brice sentou-se no degrau da prpria Porta, acariciando Co.
Eva Winthrop era um desafio. Quando ficava vermelha, como momentos atrs, provocava nele uma estranha reao, fazendo-o dizer as coisas mais chocantes, s para ver o rubor cobrir o lindo rosto outra vez. Fazia muito tempo que ele no se interessava realmente por uma mulher, que no se lembrava que existiam outras coisas alm de trabalho.
Havia algo que o atraa para Eva. Ele chegava a sentir que uma espcie de vnculo criara-se entre eles, desde o primeiro encontro. O problema era que Eva no conseguia relaxar o bastante para perceber o que acontecia em seu prprio ntimo. Parecia sempre em guarda, sempre preocupada e tensa.
 O que Eva precisa  aprender como se curte a vida  ele murmurou para o cachorro, que abanou o rabo, parecendo compreend-lo.  E acho que sou a pessoa indicada para ensin-la. O que voc acha, Co? Tenho alguma chance com ela, ou corro o risco de sair com o nariz arranhado?
Co no tinha resposta para dar.

CAPITULO III

O ar matutino parecia pesado, quando Eva saiu de casa para ir  escola. Era sua primeira manh sem o carro, mas j estava arrependida de t-lo emprestado a Colleen. Tivera de acordar meia hora mais cedo para no correr o risco de chegar atrasada.
Andara meio quarteiro, quando ouviu o barulho do motor de uma motocicleta aproximando-se. Virou-se e viu Brice, que parava a moto a seu lado.
	Onde est seu carro?  ele perguntou com um sorriso amigvel.
	Emprestei para minha irm por alguns dias  Eva respondeu, elevando o tom de voz para ser ouvida acima do ronco do motor.
Suba. Eu a levo para a escola  ele convidou, mostrando o pedao de banco atrs dele.
	No, obrigada. Prefiro ir andando.
Os olhos dele brilharam, desafiadores.
- Qual  o problema, Eva? Est com medo?
	Claro que no!  ela mentiu.
Ento, venha comigo  ele insistiu, sorrindo. 
Foi esse mesmo srdido sorriso que a serpente lanou  primeira Eva, induzindo-a a comer o fruto proibido", pensou Eva. Ele pegou o capacete de reserva, que estendeu para ela. vamos l, voc vai gostar.
Eva fitou o capacete como se olhasse para a ma proibida. Mentira quando dissera que no tinha medo. Nunca montara em uma motocicleta em toda sua vida, mas no era s isso. E se algum a visse na moto com ele? O que seria de sua reputao?
	So s alguns quarteires  ele persistiu.
Antes que o lado racional falasse mais alto, ela pegou o capacete e colocou-o na cabea, aceitando o desafio.
Finalmente, aproximou-se da mquina, analisando o pequeno espao destinado ao passageiro. Como podia sentar ali sem tocar no corpo de Brice? Naquele momento, era de extrema importncia evitar qualquer contato fsico com ele. Sua masculinidade era aterradora.
	Ento?  ele pressionou, esperanoso.
	J vou  ela murmurou.
Subiu na garupa, um tanto hesitante. Era impossvel no encostar nas costas de Brice e isso a aterrorizava.
	Pronta?  ele perguntou, virando a cabea para enderear-lhe um sorriso encorajador.
Ela meneou a cabea, nervosa demais para responder. O que estava fazendo? Nunca andara de moto antes! E se seus alunos a vissem? E se a sra. Worthington a visse?
	 melhor segurar-se  ele aconselhou.
Segurar-se em qu? No havia nenhuma ala de segurana, no havia nada alm de Brice e ela no ia abra-lo!
	Estou bem  ela respondeu com um sorriso de falsa tranquilidade.
Sentia o corao pulsar em ritmo acelerado, quando ele ps a mquina em movimento. Ento, pendeu para trs, perigosamente, e foi obrigada a passar os braos ao redor da cintura de Brice para no cair. Fechou os olhos, decidindo que o nico jeito de suportar aquilo era fingir que estava sonhando. Ou melhor, que estava tendo um pesadelo, mas que logo iria acordar.
No entanto, mal haviam alcanado o quarteiro seguinte, quando ela abriu os olhos, surpresa em notar como tudo parecia mais bonito, como era gostoso e calmante sentir a brisa fria da manh batendo em seu rosto.
Mas havia coisas perturbadoras. O cheiro de Brice, por exemplo. Ele exalava o aroma sensual de noites quentes e de liberdade. O corpo msculo era quente e os msculos sob as mos dela contraam-se, rijos e elsticos. Eva visualizou-o usando uma minscula cueca, expondo as pernas musculosas, o estmago chato, a cintura estreita e os ombros largos.
Apesar do constrangimento de estar to perto dele, ela se sentiu exultante, revigorada, cheia de vida e ansiosa por liberdade. Nunca se sentira assim, antes.
Ficou quase desapontada quando ele parou a moto no lugar designado, no estacionamento da escola. Saltou e corou violentamente ao ver duas alunas paradas, olhando para ela e Brice com curiosidade.
	Oi, srta. Winthrop  as garotas cumprimentaram.
	Oi, Diane... Oi, Audrey  respondeu Eva, desviando o olhar.
Entregou o capacete a Brice, que tambm saltara da moto.
	Oi, meninas! Aposto que no sabiam que a srta. Winthrop era aventureira  ele brincou, falando com as alunas.
As duas olharam timidamente para Eva e afastaram-se, dando risadinhas que tentavam sufocar com as mos.
	Muito obrigada!  Eva exclamou, irritada.  J tenho dificuldade em fazer com que meus alunos adolescentes me respeitem. Agora, vo pensar que sou uma motoqueira desajuizada.
Brice riu.
	Mas eu pensarei em voc como minha companheira de aventuras.  Tornou a rir, parecendo zombar do olhar de desaprovao de Eva.  Calma! No foi to ruim assim. Conheo muito bem esses adolescentes. Garanto que o respeito deles por voc ser maior, de hoje em diante.
	Duvido  ela resmungou.
Quando comearam a andar em direo ao prdio principal, Brice fitou-a com malcia.
	Admita que gostou, Eva.
Ela sorriu, ento. No foi um grande sorriso, mas bastou para mudar o ritmo do corao de Brice. Ele imaginara que Eva ficaria muito mais bonita, sorrindo, e no se enganara. Os olhos verdes tornaram-se mais brilhantes e o rosto assumira um ar sensual. Ele, ento, pensou em como ela ficaria linda, sorrindo de verdade, feliz e descontrada.
	Foi uma experincia diferente  ela respondeu, incapaz de admitir que fora a mais excitante de sua vida.
Na verdade, ainda parecia sentir o vento no rosto e continuava excitada, dominada por deliciosa sensao de liberdade. Mas no conseguia definir se fora a motocicleta ou a proximidade do corpo de Brice que a deixara to empolgada.
	Estava pensando se voc me faria um favor  ele preludiou ao entrarem na escola.
	Que tipo de favor?  ela perguntou, hesitante.
Preferia envolver-se o menos possvel com Brice. Por alguma razo, quando ele estava por perto, ela ficava num estado esquisito, como se tivesse bebido muitos copos de vinho.
	Planejei dar uma olhada nas notas dos alunos, ver o que funciona e o que no funciona na estrutura do ensino. Gostaria de fazer isso com a ajuda de uma pessoa que trabalha diretamente com eles. Voc pode ir ao meu gabinete hoje  tarde, depois das aulas?
Pronunciar um enftico "no" foi o primeiro impulso de Eva. Quanto mais longe ficasse de Brice, melhor. Ainda que seu relacionamento fosse apenas profissional, ela se sentia desconfortvel na presena dele. Mas ajud-lo, dar-lhe apoio naqueles primeiros dias num ambiente estranho, talvez fosse seu dever.
Est bem  concordou, depois de longa hesitao.
Afinal, o que poderia acontecer entre eles na diretoria, em plena tarde?
Como se tivesse lido sua mente, Brice lanou-lhe um sorriso provocador.
	Tenho certeza de que essa visita ao gabinete do diretor ser a melhor que j fez em toda sua vida  arreliou.
Com essas palavras, virou-se e seguiu pelo corredor at sua sala.
Quando as aulas do dia acabaram, Eva chegara  concluso de que seria perigoso encontrar-se com Brice. No importava que ele fosse seu chefe e diretor do curso de segundo grau. Ela fora uma tola, concordando em ajud-lo.
Na hora do recreio, ela se encontrara com outros professores, que lhe contaram que Brice entrara em suas salas de aula e acomodara-se na ltima carteira, de onde ficara observando atentamente o mtodo de ensino de cada um.
A ansiedade de Eva aumentou consideravelmente quando ela imaginou como conseguiria dar uma boa aula, consciente da presena de Brice. Pior ainda, lembrando-se de como seu corpo encostara-se no dele, no rpido percurso de moto.
Os passos dela ecoavam no corredor vazio. No havia ningum naquela ala do prdio. Alunos, professores e at a secretria de Brice tinham ido embora.
Ela hesitou diante da porta do gabinete. "Foi um erro", pensou. "Estou me jogando na boca do lobo". Decidindo que seus pensamentos eram absurdos, bateu na porta. "Somos profissionais", recitou para si mesma, quando Brice mandou-a entrar.
Ela avanou, sentindo o desconforto usual que a dominava quando o encontrava. Ele estava sentado atrs da velha mesa de carvalho, no aparentando nenhum cansao depois do longo dia de trabalho.
Brice ergueu-se ao v-la entrar.
	Por favor, fique  vontade  pediu, mostrando a cadeira a sua frente e voltando a sentar-se.  Estive examinando as notas, lendo relatrios e atas de reunies e pude perceber que esta escola encontra-se em estado deplorvel. Eva piscou vrias vezes, profundamente surpresa.
	O que quer dizer?  perguntou, acomodando-se na cadeira.
Ele se levantou e andou at a janela, onde parou, olhando para fora.
	A situao  terrvel. O ndice de evaso de alunos do segundo grau  alarmante, a mdia das notas  trinta por cento mais baixa do que a estabelecida como padro nacional e o time de futebol no vence um campeonato h dez anos.
Fez uma pausa, passando a mo pelo cabelo preso na nuca.
	Pela manh, os professores chegam no mesmo horrio que os alunos e  tarde saem correndo, mal toca o sinal  prosseguiu.  No fazem reunies para discutir formas de melhorar o ensino. No respeitam as crianas e jovens que esto aqui para ser educados!
	Oh!  exclamou Eva, chocada.
Ele a fitou por um momento, percebendo que tinha sido duro demais.
	Desculpe, no estou censurando voc, mas a situao.
S a estou usando como bode expiatrio.
Eva sorriu, concordando.
	Acho que fiz a mesma coisa, ontem a noite, quando briguei com voc por causa de seu cachorro.
Estava sendo fcil sorrir. Afinal, a conversa tomara um rumo estritamente profissional.
Brice comeou a andar pela sala com o olhar perdido, obviamente preocupado.
	No entendo como deixaram isso acontecer. Esta escola tem problemas gravssimos que precisam ser resolvidos o mais rpido possvel.
	No est pintando um quadro sombrio demais?  perguntou Eva, sentido-se ofendida.  Se a situao  to ruim assim, como a escola conseguiu funcionar antes de sua chegada?
	No fao a mnima ideia. Mas, de qualquer forma, tenho alguns projetos e voc pode me ajudar a coloc-los em prtica.
Eva assentiu, feliz em notar que a srie de insultos chegara ao fim.
	A primeira coisa que vou exigir  que os professores cheguem meia hora mais cedo, pela manh, e fiquem mais uma hora, depois das aulas, para tirarem as dvidas dos alunos Brice anunciou.  Como posso esperar que os estudantes sejam mais aplicados, se os professores no so?
Eva sorriu.
	Voc certamente no far muitos amigos entre os professores.
	No estou aqui para fazer amigos, mas para trabalhar pelo bem dos alunos.
Eva concordou, pensativa.
	Na verdade, acho que sua ideia  boa. Temos trabalhado desregradamente, desde que ficamos sem diretor.
Embora Eva concordasse com o aumento de horas de trabalho, sabia que muitos professores ficariam insatisfeitos. Mas Brice estava tomando a atitude certa. Um pouco mais de responsabilidade melhoraria a reputao da escola.
	Para conhecer outra ideia minha, voc precisa vir comigo 	ele avisou, caminhando para a porta.
	Aonde vamos?  Eva perguntou, enquanto, seguindo-o pelo corredor.
	Voc ver  ele respondeu, sorrindo enigmaticamente.
	Uma das coisas mais importantes no ensino  motivar os alunos, dando-lhes estmulo para vir  escola.
	Isso  mais fcil na teoria do que na prtica  Eva replicou, quase correndo para acompanhar seus passos largos.
	Minha ideia baseia-se no que fizemos em Nova York  ele explicou, parando na frente da escada de ferro que levava ao terrao de cobertura da escola.  Formamos um "clube de cobertura". Venha comigo.
Ela hesitou, incerta se queria ficar sozinha no terrao com Brice. Afinal, no o conhecia. Como podia saber que no se tratava de um manaco sexual?
Ele riu de sua hesitao.
	Sempre pensa tanto, antes de agir?  perguntou.  Nunca age por impulso?
	Nunca  ela respondeu decidida.  S os tolos so impulsivos..
	Um pouco de emoo faz bem  alma  Brice declarou sorrindo.
	Ento, sua alma deve ser bem saudvel  Eva retrucou, comeando a subir a escada na frente dele.
Brice subiu atrs, aproveitando para admirar os movimentos deliciosos do traseiro perfeito. Eva era um encanto. E um enigma. Ela o intrigava com aqueles olhos verdes que deixavam entrever um esprito apaixonado, mantido sob rgido controle, como se ela tivesse medo das prprias emoes. Ele tambm fora assim, at cinco anos atrs. Vivera sob o peso de respon-sabilidades, preso s correntes dos deveres que se impusera voluntariamente. Eva precisava de algum que a ajudasse a livrar-se dessas correntes. A pergunta era: seria ele o homem certo para ajud-la?
Chegaram ao topo e Eva virou-se para encar-lo. Os olhos j dela brilhavam com estrelas, mostrando uma mistura de irritao e entusiasmo. Olhando-a, Brice refletiu que gostaria muito de ensin-la a gostar da vida e do amor.
Ele a seguiu at o lado do terrao de onde se via a rua principal. Olharam por cima da mureta de proteo de um metro e vinte de altura, observando a rua que se estendia l embaixo.
	O que as pessoas fazem nos finais de semana aqui em  Pawkinah?  ele perguntou.
H um boliche no lado norte da cidade, um drive-in no lado sul, e uma pizzaria frequentada por garotos, a na rua Main. Mas voc me trouxe aqui para discutir os hbitos sociais das pessoas, ou para expor sua ideia?
	Podemos discutir os hbitos sociais de Eva Winthrop 	ele arriscou.
	No tenho tempo para cultiv-los  ela declarou.  E se no vamos falar sobre a escola,  melhor eu ir para casa.
Quer me explicar o que  esse "clube de cobertura"?
Ele sorriu, decidindo deixar as investidas para um momento mais apropriado. Mais cedo ou mais tarde, Eva baixaria a guarda.
	Cada semana, os alunos ganham pontos pelo bom desempenho. Quando alcanam um certo nmero de pontos, podem subir ao terrao na hora do recreio. Servimos pizza e soda para todos. O que voc acha? Deu certo, em Nova York.
	Acho que  loucura. No estamos em Nova York. Alm do mais, a sra. Worthington nunca dar verba para pizza e soda. Eva voltou para a escada e comeou a descer. Brice a seguiu.  Desculpe, mas acho que a ideia no vai dar certo 	ela observou, quando chegaram ao cho.
	A sra. Worthington sabia exatamente como eu trabalhava, quando me contratou. Meu curriculum mostra que no sou adepto dos mtodos convencionais de ensino.
	O que est no papel e o que se faz na prtica so duas realidades diferentes  Eva sentenciou, olhando para o relgio. Tenho de ir para casa.
	Levo voc. Tambm estou indo embora.
	No, prefiro andar  Eva recusou com mais rispidez do que planejara, comeando a afastar-se.
No queria outra volta de motocicleta. No queria outro contato fsico com Brice.
	Tem certeza?  ele perguntou, caminhando ao lado dela.
	Tenho.
Aproximaram-se da moto e ele montou.
	Pretendo ir adiante com a ideia do clube de cobertura.
Se a sra. Worthington no quiser pagar, tiro o dinheiro do meu prprio bolso.
	Por que faz tanto empenho?  Eva indagou, intrigada com a insistncia dele.
	As escolas esto competindo com videogames e com a MTV. Precisamos dar a esses garotos alguma diverso, uma razo para vir  escola, ou ento os perderemos. Pensei tambm em aulas de dana.
Eva meneou a cabea.
	No temos curso de dana h cinco anos  informou.  A sra. Worthington acha que no leva a nada.
	No h nenhuma clusula em meu contrato que me obrigue a ser agradvel  sra. Worthington. Ela pode ser dona da cidade inteira, mas eu no sou sua propriedade.
Perteno apenas a mim mesmo, Eva. Voc pode dizer o mesmo?
Ela no podia. Na verdade, no podia dizer coisa alguma e mal conseguia respirar, afetada pela proximidade de Brice.
Ele desceu da moto e sem nenhum aviso abraou-a pela cintura. Antes que ela pudesse protestar, puxou-a contra o corpo e beijou-a na boca. Eva teve a impresso de que tudo em volta desaparecia e no foi capaz de resistir. Retribuiu com ardor, entregando-se a uma paixo que no suspeitava possuir.
Vagarosamente, Brice interrompeu o beijo e fitou-a com os olhos nublados de desejo.
	Foi um impulso.
Eva desvencilhou-se do abrao e deu um passo para trs, incapaz de acreditar no que acontecera.
	Foi um erro  murmurou, sentindo o sangue subir ao rosto.
Ele sorriu com jeito maroto e colocou o capacete.
	Se errei, voc tambm errou.
	Como assim?  ela perguntou num fio de voz.
Ele sentou-se na moto e ligou o motor.
Eu a beijei, mas voc correspondeu.
Com esse comentrio, foi embora.
Ela ficou parada, perplexa. Agira como uma adolescente idiota. Levou a mo aos lbios, que ainda guardavam o gosto do beijo impetuoso.
Brice pretendia fazer mudanas na escola e causaria muita confuso. Para Eva, porm, o mais preocupante era perceber que ele ameaava fazer mudanas tambm em sua vida.
CAPITULO IV

O que ser que est acontecendo?", Eva perguntou-se, quando virou a esquina e viu o ajuntamento na frente da escola.
Algo fora do comum, obviamente. Uma multido de alunos, espalhada por todo o quarteiro, gritava de entusiasmo.
	O que houve? Por que essa manifestao toda?  ela indagou, falando com um grupo de adolescentes.
	O sr. Maxwell est na cobertura do prdio  um dos garotos explicou com os olhos brilhando de excitao e apontando para o telhado.  Ele disse que vai ficar l at conseguir melhorar o mtodo de ensino de nossa escola.
	. Ele armou uma barraca, l em cima  outro rapazinho acrescentou, parecendo muito agitado.
Os alunos provavelmente estavam achando Brice um heri, mas Eva tinha outros adjetivos para descrev-lo: luntico, exibido e palavras dessa natureza.
Ela entrou no prdio e percorreu o corredor at sua sala.
	Ele  completamente louco  murmurou, entrando na classe. Um inconsequente.
	As pessoas pensaro que voc  maluca falando sozinha dessa maneira  a professora de artes avisou, sentada na mesa de Eva.  Mas pelo jeito j ficou sabendo da novidade. Nosso novo diretor acampou no telhado.
Eva concordou, arrumando os papis em cima da mesa.
 Um dos garotos comentou que Brice Maxwell est fazendo campanha para melhorar nossos mtodos. Margie sorriu.
	E est determinado a ganhar essa guerra. Foi para o telhado bem preparado. Levou uma barraca, cadeiras de armar, lampies e um saco de dormir.
	Quero saber se est preparado para enfrentar o conselho administrativo e explicar essa atitude ridcula  Eva resmungou, pegando alguns livros do armrio.
	A Worthington ficar possessa, com certeza. Ouvi dizer que alguns alunos chamaram a equipe de notcias do canal quatro.
	Esse doido vai pr a cidade em polvorosa.
	E isso no  bom? Nunca acontece nada por aqui!  comentou a professora de artes, levantando-se e caminhando para a porta.
Clube de cobertura... Acampamento no telhado... Brice Maxwell e seus mtodos pouco convencionais estavam transformando aquela escola num circo. E o conselho no ficaria feliz com isso.
O dia foi agitado. No meio da manh apareceram dois cmeras e uma reprter da emissora de televiso. Depois do almoo, na sala de descanso, os professores s falavam de Brice. Mas, de modo inacreditvel, os membros do conselho e a sra. Worthington mantiveram-se invisveis, no dando a menor demonstrao de que sabiam o que estava acontecendo.
Foi no fim das aulas que Eva decidiu subir ao telhado para falar com Brice. Parou no topo da escada para ajeitar o cabelo e as roupas, irritada consigo mesma por esse impulso absurdo de vaidade.
	Bem-vinda ao meu castelo  ele a saudou, apontando para a pequena barraca azul e vermelha.
Eva aproximou-se, meneando a cabea em desaprovao.
	Tem um enorme talento para bagunar as coisas, sr. Maxwell. Est criando problemas para si mesmo, no percebe?
	Se os resultados forem positivos, valer a pena enfrentar alguns probleminhas  ele respondeu sorrindo.
Foi um sorriso charmoso e jovial que refletia uma pitada de rebeldia.
Ele estava vestido de modo inadequado para um diretor de escola, evidenciando que uma das facetas de sua personalidade era a irreverncia. A cala jeans e a desbotada camisa de algodo azul, porm, o tornavam mais lindo e sedutor.
Eva irritou-se com esse pensamento.
	Esta cidade estava mesmo precisando de uma cpia de James Dean  ironizou.
O sorriso de Brice alargou-se.
	Mas James Dean era um rebelde sem causa. Sou um rebelde com causa justa.
	Brice, a nica coisa que vai conseguir  aborrecer a turma do conselho. Aquelas pessoas so poderosas e acabam com todos os que no fazem o jogo delas.
Ele andou at ela e pegou-a pela mo, levando-a na direo de duas cadeiras de armar. Sentaram-se e ficaram to prximos que a perna dele tocava a dela. Eva sentiu o corao disparar.
	No interessa a qualidade dos professores, se eles no tm alunos para ensinar  ele observou.  Os alunos esto faltando demais s aulas. Se o que pretendo fazer trouxer esses
jovens todos os dias s salas de aula, o conselho no ter motivo para preocupao. Concorda?
Eva assentiu, achando a explicao sensata, apesar de toda aquela maluquice. Mas era difcil pensar com coerncia perto de algum que emanava um magnetismo to forte. Ela saltou da cadeira e afastou-se depressa, como se fugisse de um perigo.
	Talvez a sra. Worthington e sua corte decidam demiti-lo, sem esperar para ver o que voc pode fazer  ela avisou.  As nicas ideias que eles aprovam, que acham boas, so as deles mesmos.
Ele a presenteou com um sorriso encantador.
	J lhe disse uma vez que a sra. Worthington sabia exatamente como eu trabalhava, quando me contratou. Mas obrigado por se importar comigo. No sabia que se preocupava tanto assim.
Eva sentiu o sangue inundar-lhe as faces, como de costume. No seja ridculo  censurou.  S no quero que a escola fique sem diretor outra vez.
O rosto ficou ainda mais quente, quando ele lhe lanou outro sorriso brilhante.
Ela no conseguia ficar imune  magia que Brice parecia espalhar a sua volta. Sentia-se quase hipnotizada, quando fitava os incrveis olhos azuis.
	Vou embora  declarou.
	Tenho dois favores para pedir-lhe, Eva. Planejei este acampamento aqui na cobertura s pressas e no tive tempo para organizar tudo.
	O que faltou?  ela perguntou, olhando em volta.
	Arrumar algum para cuidar de Co e trazer comida para mim  ele explicou, tirando um molho de chaves do bolso.  Voc daria uma olhada no meu cachorro, enquanto estou aqui?
Ela hesitou, olhando para as chaves na mo dele. Queria dizer "no". Qualquer envolvimento com Brice seria pura insensatez. Alm disso, no tinha a mnima vontade de chegar perto daquele cachorro outra vez.
	Eu apreciaria muito sua ajuda, Eva  ele insistiu.  Co e eu no conhecemos mais ningum nesta cidade.
	Est bem  ela concordou com relutncia, pegando as chaves.
No podia deixar que um animal, nem mesmo Co, ficasse sem comer.
	Estaria abusando, se lhe pedisse que trouxesse algo para eu comer, mais tarde? Pagarei esse favor de alguma forma, qualquer dia.
	No precisa me pagar  ela respondeu.  Considere isso um favor que fao  escola. Voc pretende mesmo ficar aqui a noite toda?
Ele confirmou com um gesto de cabea.
	E todas as noites, at conseguir o que desejo para tornar a escola mais atraente para os alunos. Agora  ponto de honra.
Disse aos garotos que levaria minha campanha adiante, at alcanar vitria.
	E se chover?
	Tenho a barraca, esqueceu? Vou ficar bem, Eva. No se preocupe comigo.
Ela concordou, caminhando para a escada.
	Voltarei mais tarde, ento  prometeu.
Respirou aliviada, quando deixou a cobertura. Havia alguma coisa em Brice que a envolvia poderosamente, deixando-a zonza e incapaz de raciocinar. Ele era mais dinmico e envolvente do que qualquer outra pessoa que ela j conhecera.
Enquanto caminhava para casa, decidiu que ligaria para Colleen e pediria seu carro de volta. Ficaria muito difcil ir a p para a escola e voltar para casa duas vezes, todos os dias. E ela no fazia a menor ideia de quando acabaria o protesto de Brice.
Entrou em casa e foi recebida pela gata, que esfregou-se carinhosamente em suas pernas.
	Oi, Fluffy  murmurou, acariciando o bichinho.
Andou at a cozinha, depois de deixar os livros e as provas na mesa da sala. Tinha o hbito de preparar as aulas para o dia seguinte e corrigir as provas assim que chegava da escola, mas naquele momento a ideia pareceu-lhe entediante.
Como se tivesse absorvido um pouco da vitalidade de Brice, sentia-se animada, com vontade de movimentar-se. Alm do mais, no conseguia esquecer que estava com a chave do apartamento de Brice no bolso. Queria ver o lugar onde ele morava, sabendo que isso lhe permitiria conhecer um pouco mais de sua personalidade. Por mais que tentasse negar, havia em Brice algo que a atraa como um im.
Tomou um copo de leite, e tornou a sair, dirigindo-se para o apartamento ao lado. Abriu a porta cautelosamente para que Co no se assustasse, o que poderia lev-lo a atac-la. Mas
no precisava ter-se preocupado. Assim que ela entrou, o cachorro foi ao seu encontro, sacudindo a cauda amigavelmente.
Eva fechou a porta, mas tornou a abri-la ao perceber o olhar suplicante de Co, que saiu correndo. Por um instante, ela ficou indecisa, imaginando se deveria deix-lo andar sozinho. E se o cachorro se perdesse? Bobagem. J o vira na rua vrias vezes, sem Brice.
Tranquilizada, voltou sua ateno para o interior do apartamento. Era igual ao seu, na estrutura, mas a semelhana terminava a.
Observou a sala de estar, quase vazia. Havia um televisor pequeno em cima de uma cadeira, um sof forrado de tecido cinzento e um aparelho de som. No havia discos espalhados, quadros, ou prateleiras com enfeites.
Tudo parecia provisrio, como se Brice estivesse planejando mudar-se para outro lugar dentro de pouco tempo. Mas ela sabia que ele no era nmade. De acordo com a secretria bisbilhoteira do curso de segundo grau, ele ficara seis anos numa mesma escola, trabalhando como diretor.
Andou at a cozinha e viu que o fogo, a pia e a mesa estavam impecavelmente limpos. Ouvira em algum lugar que o contedo de uma geladeira fazia muitas revelaes sobre a personalidade de uma pessoa. Mas na geladeira de Brice s havia um vidro de catchup quase cheio, uma jarra de leite e legumes em conserva. Ela suspirou, desapontada. Que revelao aquelas coisas corriqueiras poderiam fazer?
Foi para o quarto, onde havia uma cama de ferro, de casal, ainda desarrumada. Os lenis tinham estampa de desenhos geomtricos, em preto e branco, e o travesseiro conservava a depresso onde Brice pousara a cabea. Quase sem querer, ela afagou o travesseiro.
Tirou a mo rapidamente ao ouvir barulho na porta de entrada. Lembrou-se de Co e, tomando conscincia de que estava se comportando como uma tola, saiu do quarto.
Ps o cachorro para dentro e, com ele nos calcanhares, voltou Para a cozinha. Encontrou rao em um dos armrios e encheu a tigela de plstico que viu no cho, junto  pia. Certificou-se de que ainda havia bastante gua na bacia ao lado da tigela, afagou a cabea enorme do cachorro, um tanto desconfiada, e foi para casa.
Ia sentar-se para corrigir as provas, quando se lembrou de ligar para Colleen. Mas, ou a irm no estava em casa, ou no quis atender, porque a secretria eletrnica foi acionada depois do quarto toque.
 Colleen,  Eva. Preciso do meu carro para hoje  noite. Se eu no estiver em casa quando voc chegar, estarei na escola, mais precisamente na cobertura.
Sorriu ao desligar o telefone, imaginando como a irm ficaria curiosa, quando ouvisse o recado. No se espantaria, se Colleen aparecesse na escola, s para ver o que ela estava fazendo.
Sentou-se, ento, e dedicou-se  tarefa enfadonha de ler as provas dos alunos. Aquela turminha era pssima em redao!
Eram quase seis horas, quando acabou de corrigir a ltima prova. Foi para o quarto e trocou de roupa, vestindo uma cala jeans e uma camiseta salmo de mangas compridas. O estmago protestou, avisando-a de que era hora de comer. Ela refletiu que Brice tambm devia estar com fome.
Voltando para a cozinha, colocou vrias coisas numa cesta, decidindo que jantaria com Brice. Ele precisava de companhia, com certeza.
O sol desaparecera no horizonte e a brisa era morna, prenunciando o vero. Caminhando para a escola, Eva imaginou se Brice ainda estaria em Pawkinah quando comeassem os dias quentes, prprios para piqueniques na beira do rio. Ele fora contratado para dirigir a escola at o incio das frias e durante todo o ano letivo seguinte. Mas Eva sabia que a sra. Worthington encontraria um jeito de romper o contrato, se Brice a aborrecesse.
Chegando  escola, ela foi para o ptio dos fundos e subiu a escada que levava  cobertura. No topo, ficou observando Brice por longo tempo. Ele estava sentado no cho, de pernas cruzadas como um buda, e de olhos fechados. Parecia mer-
gulhado em meditao. Por fim, pressentiu a presena de outra pessoa, abriu os olhos e virou-se, encarando Eva com um sorriso luminoso.
	Est com fome?  ela perguntou, andando em sua direo.
	Esfomeado  ele respondeu, olhando de modo sensual para a boca de Eva.
Ela corou e baixou os olhos.
	timo. Trouxe frango.
	Nada mais gostoso do que um peito macio ou coxas carnudas  ele comentou com malcia.
	Voc no tem jeito  ela censurou, no contendo um sorriso.
Ele riu e apontou para o saco de dormir, estendido fora da pequena barraca.
	Sente-se  convidou, pegando a cesta das mos dela.
 Nossa! Pelo peso, trouxe comida suficiente para cinco pessoas. Vai.me acompanhar, certo?
Ela assentiu e acomodou-se no saco de dormir. Brice sentou-se a sua frente e os dois comearam a tirar as coisas da cesta.
	Como achou tempo para fazer tudo isso?  ele quis saber, enquanto se serviam.
	Fiz a maior parte das coisas ontem  ela explicou.  Normalmente passo o domingo preparando comida para a semana.
	Minha organizada e previdente Eva  ele murmurou, estendendo a mo e tocando-a no rosto.
Ento, atacou uma coxa de frango.
Eva ficou olhando para o prprio prato, sentindo a pele queimar, onde Brice encostara a mo. "Minha organizada e previdente Eva", ele dissera, como se houvesse uma grande intimidade entre os dois.
Nos minutos seguintes ficaram calados, saboreando a comida, relaxando no silncio da noite calma. Acima deles o cu escuro era um manto aveludado salpicado de estrelas brilhantes. Brice colocara um lampio no cho, criando uma atmosfera aconchegante.
Eva o observava disfaradamente, enquanto ele devorava a salada, o po caseiro e o frango. Brice era fascinante, dos ps ao ltimo fio da longa e farta cabeleira. Nunca um homem a atrara tanto quanto ele e, admitindo esse fato, Eva sentiu-se mais receosa que nunca.
Um carro passou l embaixo, devagar e com a buzina tocando ritmadamente. Brice levantou-se, andou at a mureta e debruou-se, acenando.
	O alunos esto checando se continuo aqui  comentou, sentando-se novamente ao lado de Eva.
	Esses meninos so de amargar  ela observou.
Ficaram em silncio. Brice sentara-se um pouco mais perto e seu joelho roava no de Eva, perturbando-a.
	Dei comida a Co  ela informou atropeladarnente, s para dizer alguma coisa.
	Obrigado. Eu estava preocupado com ele.
	E o cachorro mais feio que j vi em minha vida  ela declarou com um sorriso.
Brice sorriu e concordou.
	Mas  fiel e muito inteligente. Entrou na minha vida no momento em que eu mais precisava dele.
	Como assim?  ela perguntou, colocando o prato vazio de lado.
	Eu tinha tido um dia pssimo. No fim da tarde, sentei-me num banco do parque e fiquei l, sentindo pena de mim mesmo.
Co apareceu e sentou-se ao lado do banco, como se fosse meu.
Brice riu, lembrando-se da cena.
	Parecia o prprio diabo, de to feio  continuou.  As orelhas estavam sangrando muito e ele tinha ferimentos por todo o corpo. Refleti que o pobre animal estava em pior situao que eu. Quando sa do parque ele me seguiu e est comigo desde ento.
	Por que seu dia fora pssimo?  Eva perguntou, arrependendo-se logo em seguida.
No queria saber nada a respeito dos problemas de Brice. Saber significaria preocupar-se com ele e ela j tinha preocupaes demais com sua prpria famlia.
	Por causa de trabalho  ele respondeu.
Aquilo no era nada pessoal, felizmente.
	O que aconteceu?  Eva incentivou-o, tranquilizada.
	Trabalhar numa escola de bairro pobre, em Nova York,  uma experincia que todo professor, todo diretor, deveria ter. Enquanto a gente tenta motivar os alunos para que estudem, eles s pensam em algo muito mais importante: sobreviver.
Brice levantou-se e debruou-se na mureta. Olhando para as ruas calmas e arborizadas da pequena cidade, ele via um mundo muito diferente do que aquele que conhecera na feroz metrpole. Acenou para outro grupo de estudantes que passavam l embaixo.
	Os meninos da escola onde lecionei, em Nova York, andam mais armados que policiais  contou com amargura, tornando a virar-se para Eva.  Consomem drogas e vrios morrem em brigas de gangues. Tentei salvar alguns. Queria fazer alguma coisa para melhorar a situao, mas depois de seis anos tentando, descobri que era um problema grande demais para eu resolver.
Eva sentiu sua frustrao e tristeza. Juntou-se a ele e tocou-o no brao, querendo confort-lo.
	Pode fazer alguma coisa aqui, Brice. A escola de Pawkinah precisa de uma pessoa como voc.
	E voc, Eva? Precisa de uma pessoa como eu?
Antes que ela tivesse tempo de responder, ele a puxou pelos braos e colou os lbios nos dela. Eva suspirou e entregou-se, desejando que aquele momento fosse eterno. Enlaou Brice pelo pescoo, retribuindo o beijo com paixo.
	Ah, Eva...  ele sussurrou, beijando-lhe o pescoo.
Ela deixou a cabea pender para trs, oferecendo-se  boca quente e vida. Estava perdida, pensou. Perdida de amor. Brice lhe dava alegria, despertava todos os seus sentidos, fazia com que se sentisse viva.
Com um leve gemido, ela agarrou-se a ele, pronta para abandonar-se ao desejo que fazia seu corpo latejar.
 Eva! Onde voc est?  algum chamou, subindo a escada.
Eva arrancou-se dos braos de Brice, reconhecendo a voz de Colleen.

CAPTULO V

Eva saiu dos braos de Brice e olhou-o como se estivesse vendo um monstro. Sentiu-se horrorizada ao pensar que o deixara envolv-la nas chamas da paixo, esquecendo-se de tudo o que a rodeava.
	Eva!  a irm chamou novamente.  Voc est a em cima?
Eva correu para a escada.
	Estou  respondeu e virou-se para Brice, informando:   minha irm.
A luz da lanterna, ela pde ver a expresso divertida nos olhos dele e ficou furiosa. O que aquele convencido pensava que estava fazendo? Algum tipo de jogo, cujo desafio era seduzir professoras?
Ela passou a mo distraidamente pelo cabelo curto, sabendo que estava exagerando. Afinal, ele apenas a beijara.
Colleen chegou ao alto da escada e olhou-a desconfiada.
	Que diabo est fazendo aqui?  perguntou em tom brusco.  No pude acreditar quando ouvi o recado na secretria eletrnica. O que est havendo?
	Nada de extraordinrio  Eva respondeu, fingindo calma.  O sr. Maxwell est fazendo um protesto em favor dos alunos e eu trouxe comida para ele.
 Ouvimos falar  replicou a irm rispidamente, fixando Brice.  Os estudantes esto assanhadssimos por causa disso. Brice olhou-a com curiosidade.
	A sra. Worthington e eu  a moa respondeu, tornando a olhar para Eva.  Trouxe seu carro, mas esperava ficar com ele mais alguns dias.
Eva meneou a cabea negativamente.
	Preciso do carro, Colleen.
	Mas eu tambm preciso  a irm protestou em tom de criana mimada.
Eva lanou um olhar para Brice, pedindo licena, e puxou a irm pelo brao, levando-a para um canto.
	J no lhe dei dinheiro para pagar a multa e tirar seu carro do departamento de trnsito?
	Deu, mas acontece que precisei gastar o dinheiro em outra coisa. No posso ficar com seu carro por mais alguns dias?  a moa pediu com um jeito falsamente doce.  Por favor, mana, seja boazinha.
Eva suspirou.
	Se eu lhe der mais dinheiro, promete que pagar a multa amanh?  sussurrou, no querendo que Brice ouvisse.
	Se me der o dinheiro, darei um jeito de retirar o carro amanh de manh, apesar de odiar aqueles caras do departamento de trnsito.
Eva estendeu a mo.
	Minhas chaves.
Com um suspiro de resignao, Colleen entregou-lhe o chaveiro.
	Vou levar voc para casa  Eva prontificou-se.
Colleen concordou e as duas caminharam at onde Brice arrumava os utenslios do jantar na cesta.
Eva sorriu para ele, agradecendo, e pegou a cesta.
	Acho melhor ir andando. Vou levar Colleen para casa.
	Obrigado pelo jantar  ele murmurou, erguendo a mo para afagar-lhe o rosto, mas desistindo em seguida.  Est tudo bem?
Colleen puxou Eva pela manga.
- Vamos embora  pediu com impacincia.
Eva sorriu distraidamente para Brice.
	Vejo voc amanh.
Como um breve aceno, afastou-se com a irm e as duas desceram a escada de ferro at o ptio.
No carro, Colleen olhou para Eva com expresso mal-humorada.
	Espero que no esteja envolvida com esse homem  declarou.
Eva deu partida no motor e ps o veculo em movimento.
	Por qu?  perguntou, quando j saam do estacionamento vazio.
No podia deixar de imaginar que motivo Colleen teria para mostrar-se interessada em sua vida particular, coisa que nunca fizera antes.
	Tem alguma coisa nele de que no gosto. Alm do mais, Brice Maxwell no ficar por aqui por muito tempo. A sra. Worthington no est nada satisfeita com o trabalho dele.
	Ela leu o curriculum de Brice antes de contrat-lo e checou as referncias. Sabia de que modo ele gostava de trabalhar  Eva observou, surpresa ao perceber que estava defendendo Brice com veemncia.
	A sra. Worthington achava que ele era meio louco porque dirigia uma escola num bairro pesado de Nova York. No esperava que trouxesse sua loucura para Pawkinah.
	No  loucura  protestou Eva.  Brice est apenas lutando para conseguir meios de estimular os alunos.
	E melhor ele encontrar um jeito de estimular a sra. Worthington, ou ficar desempregado  comentou a irm.
Eva entrou numa rua lindamente arborizada e parou o carro na frente do prdio de Colleen.
	Tudo o que sei  a moa continuou   que voc tambm acabar louca, se continuar envolvida com esse ho mem.
Por que insiste em criticar minha amizade com Brice?
 Eva perguntou irritada.   s isso que existe entre ns: a-mi-za-de. E superficial. Entendeu?
	Ento, por que levou comida para ele?
	Foi um favor que ele me pediu e eu no poderia me negar a ajud-lo, no acha?
Colleen apertou os lbios e meneou a cabea, com ar de desconfiana.
	O que foi agora?  perguntou Eva.
Colleen encarou-a.
	Quando subi ao terrao, havia um clima esquisito entre vocs dois. Parecia que eu tinha interrompido uma briga ou qualquer outra coisa emocionante.
	Colleen!  gritou Eva, sentindo o rosto arder.  Sua imaginao frtil desta vez foi longe demais.
	Imaginao, ou no, sei que voc vai se arrepender, se continuar se relacionando com Brice Maxwell. Ele pode te magoar muito  a moa observou, abrindo a porta do carro.
	No seja boba, Colleen.
	Cuidado, Eva  recomendou a irm, saltando do carro.
Bateu a porta e curvou-se para olhar pela janela.  Quase ia esquecendo de dizer que mame pediu para voc ir a casa dela amanh. Est com o ralo da pia entupido.
	Por que ela no chama um encanador?
	Sei l.
Eva suspirou.
	Est bem. Verei o que posso fazer. Quanto ao dinheiro da multa, levarei para a escola, amanh. Procure-me.
	Est bem. Ser que voc podia me emprestar seu vestido azul? Eddie vai me levar para jantar na sexta-feira  noite e no tenho nada novo para vestir.
	Passe l em casa para peg-lo.
	T legal. Tchau.
Eva acenou e esperou at que a irm entrasse no prdio. Ento, seguiu seu caminho para casa.
Eva pensava nas palavras da irm, quando levou o jantar de Brice, no dia seguinte. Colleen dissera que ela ficaria louca, se continuasse a relacionar-se com ele.
Realmente, j devia estar enlouquecendo, porque mal podia esperar pelo momento de v-lo outra vez, mesmo sabendo que nada de profundo poderia nascer entre eles. Eram muito diferentes, em tudo. Alm disso, Colleen comentara que ele no ficaria muito tempo em Pawkinah. Brice iria embora, mais cedo ou mais tarde, e ela ficaria chorando, se fosse tola o bastante para apaixonar-se por ele.
Com esse pensamento, subiu a escada para a cobertura, incapaz de conter as batidas fortes do corao.
	Est adiantada, hoje  ele comentou, pegando o pacote que ela lhe entregou.  Que delcias me trouxe?
	Sanduches de carne, batatas fritas e um pedao de bolo de chocolate  Eva respondeu, percebendo que s conseguia pensar nos beijos que tinham trocado na noite anterior.
Os lbios de Brice eram to quentes e firmes... O que teria acontecido, se Colleen no aparecesse? S de imaginar, Eva sentiu-se zonza.
	No posso ficar muito tempo  avisou.  Estou indo para a casa de minha me. Preciso ajud-la a desentupir a pia Brice fitou-a pensativo. Era a mesma expresso com que a observara na noite anterior, como se quisesse conhecer o fundo de sua alma.
	A encanadora da famlia, a locadora de carros, a que concede emprstimos... Sua famlia sempre tira vantagem de voc?
	O qu?  Eva encarou-o, incrdula.
	Voc entendeu  ele respondeu, pegando-a pela mo e fazendo-a sentar-se a seu lado, no saco de dormir.
	Minha famlia no  aproveitadora  ela protestou.  Bem, talvez seja um pouco, mas no me importo. Quero dizer, no me importo muito. Depois da morte do meu pai, fiquei sendo o nico apoio de minha me e de Colleen.  natural que eu as ajude.
	Pelo que vi ontem  noite, no conseguem viver sem voc.
Eva bateu nos joelhos num gesto de irritao.
	O que voc entende de responsabilidades familiares? A maioria das pessoas em Pawkinah acredita que voc foi renegado pela famlia.
Brice gargalhou, no se espantando com aquele comentrio. Sabia que era alvo de mexericos, mas teria de acostumar-se com isso. Afinal, era um comportamento tpico de habitantes de cidades pequenas.
Virou-se para Eva, observando como a luz suave do entardecer lanava matizes rosados em sua pele clara, causando um efeito sensual. Ela teria ideia de quanto era bonita? Provavelmente, no. Era bonita e generosa. Talvez generosa demais.
	Ao contrrio do que o povo possa pensar, Eva, eu tenho famlia. Meus pais so pessoas maravilhosas e de uma extrema bondade. Na verdade, a generosidade deles quase nos destruiu a todos.
	Como assim?  ela perguntou, intrigada.
Ele hesitou por alguns momentos, com o pensamento distante, resgatando lembranas do passado.
	Nasci j fora de poca  comeou a contar, sorrindo de leve.  Minha me tinha quase quarenta anos e meu pai completara cinquenta. Fazia muito tempo que tentavam ter um filho e quando nasci ficaram alucinados de alegria. Dedicaram a mim todo o amor que possuam represado no corao.
Fez uma pausa e o sorriso nostlgico desapareceu.
	Fui mimado de modo absurdo e logo descobri que podia cometer todos os erros, porque meus pais me tirariam de qual quer apuro.
Levantou-se, dominado pelas lembranas. No eram recordaes felizes.
	Quanto mais eu errava, mais eles se esforavam por me proteger  continuou.  Quando fiquei mais velho, os problemas aumentaram. No comeo eram apenas travessuras de adolescente, como fumar no banheiro da escola, cabular aulas, andar com pessoas no muito recomendveis. Conhece o quadro?
Eva concordou relutante, pensando em Colleen. Nos ltimos trs anos, gastara muita energia, tempo e dinheiro, tirando a irm de encrencas. Nada muito srio, felizmente. No entanto, a situao a irritava, porque Colleen recusava-se a amadurecer. Nunca assumia o que fazia.
	Para encurtar a histria, quando cheguei ao colegial as coisas tornaram-se insuportveis e acabei na cadeia.
Eva engoliu em seco, atnita.
	Por qu?
Brice sorriu.
	Eu e alguns garotos decidimos que no gostvamos da cor de uma esttua, no jardim do bairro. Resolvemos, ento, pint-la de rosa-choque. Nos pegaram com as mos na massa ou, no caso, na esttua.
	Brice, voc no precisa me contar essas coisas  ela comentou, levantando-se tambm.  Voc era um garoto e cometeu erros. Todos ns erramos, quando somos jovens.
Ele negou, abanando a cabea.
	Por favor, deixe-me terminar. Acho que  importante que saiba de tudo. Fui para a cadeia, esperando que meus pais, como sempre, fossem em meu socorro. Eu estava acostumado a isso. Mas daquela vez eles no me ajudaram. Esperei e esperei, mas nenhum dos dois apareceu.
	O que fez, ento?
	No comeo, fiquei com raiva. No podia entender por que no me tiravam daquela enrascada.
Ele parou de falar e por um momento seus olhos refletiram o tumulto ntimo daquela poca distante. Eva pde ter uma ideia do garoto que ele fora. Rebeldia de adolescente ardia nos olhos azuis. Ento, ele suspirou e os reflexos do passado apagaram-se. Ali estava o Brice adulto, ainda rebelde, mas inegavelmente maduro e responsvel.
A raiva deu lugar ao medo e finalmente  conformao, fiquei na cadeia trs dias e durante esse tempo refleti sobre mim mesmo e sobre meus pais. Decidi mudar.
Ele voltou para o saco de dormir e sentou-se. Eva juntou-se a ele.
	O que aconteceu depois, Brice?
	Quando meus pais foram me buscar, olhei bem para eles.
Era a primeira vez que os via exatamente como eles eram. Percebi o quanto estavam cansados e tristes. A partir daquele momento, minha vida mudou. Aprendi a aceitar as consequncias dos meus atos e adquiri respeito por mim mesmo.
	Brice, no entendo por que...
Ele a interrompeu, colocando a mo em seu ombro.
	Voc est fazendo com Colleen a mesma coisa que meus pais fizeram comigo  acusou em tom brando.  Est encorajando sua irm a ser irresponsvel.
Ela recuou, irritada com o que Brice lhe dissera. A irresponsabilidade de Colleen no era culpa sua.
	Oh, Eva... Quando olho para voc, torno a ver meus pais  ele comentou, puxando-a pela mo.  Um dia vai acordar e perceber que a vida passou, sem que voc tenha feito algo por si mesma.
Era difcil continuar com raiva, porque ela sabia que as palavras de Brice eram verdadeiras e necessrias.
	Acorde, Eva, e comece a viver sua vida antes que seja tarde demais  ele aconselhou em tom carinhoso.   a melhor coisa que far por voc mesma e tambm por sua me e sua irm.
Estendeu a mo e contornou os lbios dela com a ponta de um dedo.
Eva sabia que ele ia beij-la. Afastou-se, porque precisava de tempo para pensar, para assimilar tudo o que ouvira. E pensar era algo que no conseguia fazer, quando estava nos braos de Brice.
	Est... est ficando tarde  gaguejou, pondo-se de p.  Minha me est me esperando.
Pegou a bolsa e caminhou para a escada.
-Eva?
Ela parou e olhou para trs.
O que , Brice?
. Voc pode comear a mudar sua vida neste exato momento. Ligue para sua me e mande-a chamar um encanador
	ele sugeriu.  Depois, volte aqui e comece a viver. J fez amor numa barraca armada na cobertura de um prdio?
	Brice Maxwell, o senhor  um sem-vergonha  respondeu Eva com um sorriso.
Desceu a escada e poucos instantes depois saa do estacionamento.
No caminho para a casa da me, continuou pensando em Brice. Ele a excitava, a confundia e, pior que tudo, a assustava.
Oferecia coisas que ela ficava com medo de aceitar. Demonstrava intensa paixo pela vida e pela liberdade. Essa paixo mudaria a vida de Eva drasticamente, se ela fosse bastante imprudente para deixar-se contaminar. Mudanas a aterrorizavam porque levavam ao imprevisvel.
Estacionou o carro diante da casa da me, notando que a grama estava crescida e que os canteiros de flores precisavam de trato. Com um suspiro, decidiu que sacrificaria o prximo fim de semana para cuidar do jardim. Aquela sempre fora sua tarefa, apesar do pouco tempo livre que tinha.
Pegou o frasco de produto desentupidor e desceu do carro, caminhando para a casa.
Violet abriu a porta e saudou-a com um beijo no rosto.
	Oh, Eva, pensei que no viesse mais  reclamou.  No sei o que aconteceu com a pia da cozinha. A gua no est escoando.
Foram para a cozinha e Eva examinou a cuba da pia cheia de gua suja. Depois de ler as instrues do frasco, derramou o o lquido na gua.
	Agora  s esperar trinta minutos. E que tal uma xcara de ch, enquanto esperamos?
	tima ideia  a me concordou, sentando-se.
Eva ps gua para ferver.
	Falou com Colleen, hoje?  perguntou, pegando as xcaras e os saquinhos de ch.  Queria saber se ela foi buscar o carro.
Violet sorriu com ar complacente.
	Foi, sim. Ela me telefonou na hora do almoo. Est adorando trabalhar com a sra. Worthington.
	S espero que esse emprego dure mais do que os outros que ela teve  comentou Eva.
	Admito que Colleen nunca parou muito tempo num emprego  replicou a me, tornando a sorrir.  Mas  porque ainda no encontrou um de que realmente goste. Colleen sempre teve esprito livre.
	Mame, h uma grande diferena entre ter um esprito livre e ser irresponsvel  Eva observou friamente.
	No seja to dura com sua irm  pediu a mulher, dizendo exatamente o que Eva j esperava.
Era uma conversa muito antiga, que se repetia sempre, com pequenas variaes.
	Essa era a poca do ano de que seu pai mais gostava. 	ele ficava no jardim a manh toda, cuidando das flores. Adorava a primavera. Se estivesse aqui...
	Mame, papai morreu h trs anos e no vai voltar  murmurou Eva, colocando gua fervente nas xcaras. Voc precisa aprender a viver sem ele.
	Mas me sinto muito sozinha nesta casa to grande! Por que no se muda para c, Eva? Eu ficaria to contente!
Eva sentiu um impulso de concordar para satisfazer a me. Queria que tudo fosse fcil e agradvel para Violet mas, pensando em tudo que Brice dissera, reconheceu que seria pior para ambas.
	Uma boa opo  vender esta casa e mudar-se para um apartamento, mame.
Violet fitou-a, horrorizada.
	Pelo amor de Deus! Seu pai no teria sossego, onde est 	declarou.
	Mame, ele sempre quis sua felicidade  observou Eva com doura.  Moram muitos aposentados, nos apartamentos do conjunto Hacienda. Ouvi dizer que fazem viagens juntos e participam de muitas outras atividades. Voc faria novos amigos.
Violet sorriu e tomou um gole de ch.
	Ah, no quero amigos. Tenho voc e Colleen. No preciso de mais ningum.
Eva forou um sorriso, mas teve a impresso de que sufocava.
Muito mais tarde, quando estava voltando para casa, analisou a conversa que tivera com a me, reconhecendo que havia detalhes inquietantes em seu relacionamento com a famlia.
Talvez Brice tivesse razo, afinal. Violet e Colleen podiam, mesmo inconscientemente, estar tirando vantagem de sua boa vontade.
O problema era decidir o que fazer para acabar com aquilo.

CAPTULO VI

Durante toda a manh, enquanto os alunos faziam provas, Eva ficou pensando na famlia, refletindo que se acomodara  situao. Deixara que Colleen e a me e sugassem.
Lembrou-se do nico relacionamento srio que tivera com um homem e que acabara em nada. Dwayne Hilton, professor de educao fsica, cansara-se de ficar em segundo plano em relao  famlia dela e a mandara escolher. Ela escolhera sem hesitar. Mandara o namorado embora.
Mas, naquele dia, depois de muitas reflexes, Eva entendeu que queria mais da vida do que sua me e Colleen podia lhe oferecer. Ela queria cozinhar para dois, dividir o espao de sua casa com um companheiro, ter com quem trocar ideias fazer planos para o futuro. E ter algum com quem ir para cama,  noite.
No almoo, sentou-se com Margie, mas no tinha vont de conversar.
	Por que est to calada, menina?  perguntou a amiga.
	S estou pensando  Eva respondeu, forando um sorriso.
Margie olhou-a de esguelha.
	Pensando em qu?
	Na minha famlia.	
	Ento, tem toda a razo de ficar com essa carinha aborrecida.
Eva observou a companheira empurrar os pedaos de cenoura da salada para um canto do prato. Depois, foi a vez das fatias de cebola. Nunca entendera por que Margie pedia salada completa, se no gostava de todos os legumes que a compunham.
	Quantos anos faz que seu pai morreu?  perguntou.
A colega encarou-a, surpresa
	Quase nove. Por qu?
	Sua me ficou dependente de voc, quando se viu sozinha?
Margie riu.
	Minha me  ativa demais para depender de outra pessoa. Frequenta um grupo de bridge e trabalha como voluntria no hospital.  duas vezes mais ocupada que eu.
Eva suspirou.
	Daria qualquer coisa para a minha ser assim.
	Desculpe perguntar, mas sua me est deixando voc louca?
	No, exatamente. Mas desde que meu pai morreu, ela se fechou para o mundo. No sai de casa, no tem amigos.
Precisa de mim para tudo.
Margie olhou-a com simpatia.
	Isso cansa.
	No me entenda mal  Eva pediu.  Adoro Colleen e minha me e acho formidvel termos um bom relacionamento. Mas fico pensando se elas no esto abusando de mim.
	Se decidir que esto, o que vai fazer a respeito?
Eva deu de ombros.
	Ainda no sei. mas acho que terei que fazer algumas mudanas drsticas.
	Falando em mudanas, j soube da circular que Brice Maxwell deixou  disposio de todos os professores, na secretaria?
Eva meneou a cabea.
	No tive tempo de ir  secretaria, hoje.
	Ele quer que nossos planejamentos de aulas sejam feitos
com uma semana de antecedncia. Tambm avisou que haver reunies todas as semanas para a discusso de objetivos e possveis problemas.
Margie parou de falar por um momento e levou uma garfada de salada  boca.
	Ouvi rumores de que os professores tero de trabalhar horas extras  completou em tom mais baixo.
Eva sorriu.
	Alis no fazem outra coisa por aqui, a no ser espalhar rumores.
	Tem razo, mas dessa vez a coisa partiu da sra. Worthington. Dizem que ela est furiosa com Brice. Isso me preocupa. E se ela cismar de demiti-lo? Nunca tivemos um diretor to dinmico.
	Tenho a impresso de que ele sabe cuidar de si mesmo  observou Eva.
Margie deu uma risadinha.
	Tem impresso, ou certeza? Parece que voc e Brice so ntimos. Ah, isso me lembra de que ainda no me contou aquela histria de trocar de roupas com ele.
	E no pretendo contar, pelo menos agora.  Eva riu, achando graa da frustrao no rosto da colega.   melhor acabarmos de comer. Ainda temos um longo dia de trabalho pela frente.
A noitinha, Eva deu comida a Co e em seguida foi a uma lanchonete. Comprou dois hambrgueres e batatas fritas para Brice, mas nada para si mesma, porque decidira no fazer-lhe companhia no jantar. Estava ficando cada vez mais perigoso passar muito tempo sozinha com ele. Brice a perturbava demais e a fazia pensar em coisas que deviam ser esquecidas.
Quando chegou  cobertura e o viu, percebeu que seu corao batia com fora e no era por causa da subida pela escada.
 Hora do jantar  anunciou, mostrando-lhe a embalagem com o lanche.
	Obrigado.
Ele pegou o pacote de suas mos e Eva notou que o cabelo escuro estava mido e exalando cheiro de xampu de ervas.
	A menos que sua barraca seja equipada com chuveiro, voc no cumpriu o trato  observou.  No podia sair da cobertura.
	Sou culpado. Pode me condenar. Mas no aguentei ficar sem banho e dei uma corrida ao vestirio masculino para tomar uma ducha. Sente-se aqui comigo.
Ele apontou o saco de dormir onde haviam se sentado nas vezes anteriores.
	Preciso ir para casa...  ela replicou, hesitante.
Brice abriu um sorriso sensual que mostrou a covinha que tinha em uma das faces, deixando-o quase irresistvel.
	Essa  uma palavra que deve abolir do dicionrio  ele comentou.  Uma delas.
	Que palavra?
	"Precisar". "Preciso" fazer isso, "preciso" fazer aquilo.
 um verbo que sugere limitaes e o ser humano no deve sentir-se limitado.
	No importa a palavra que eu use, vou continuar tendo de voltar para casa.
	Por qu? Tem alguma coisa l, esperando por voc?
No v ainda, por favor  ele pediu, segurando-lhe a mo.
 Pelo menos espere eu acabar de comer. As noites parecem mais compridas quando se est sozinho.
Eva no pde resistir ao apelo. Contrariando sua deciso de ficar longe dele, sentou-se ao seu lado no saco de dormir.
	Sinto-me muito isolado, aqui  ele se queixou, abrindo o saco da lanchonete.  Conte-me como foi seu dia.
Ela falou das aulas, dos alunos que davam muito trabalho e tambm daqueles que eram comportados. Era fcil conversar com Brice. As palavras fluam com naturalidade, espontaneamente.
Havia algo que sugeria intimidade no fato de estar com ele naquela cobertura. Era uma deliciosa sensao de estar separada do resto da cidade, do mundo inteiro.
	Johnny Cleavinger no  um menino mau, mas tenho dificuldade em faz-lo participar das aulas. Quando no est dormindo, est lendo revistas de motociclismo  ela confidenciou com um suspiro de frustrao.
	Fiquei surpreso quando descobri que a escola no oferece cursos de mecnica  ele Brice.
	Nunca tivemos verba para cursos desse tipo.
	Uma pena. Meninos como Johnny provavelmente iam sentir-se motivados : comentou Brice, oferecendo-lhe uma batata frita. Ela aceitou.
	Isso me fez lembrar quando eu e minha turma aprontvamos o diabo, na escola  ele prosseguiu.  No tnhamos nada de interessante para fazer. Precisvamos de uma atividade motivadora, mas ningum se importava com isso. Foi assim que meus problemas comearam.
	Graas a Deus saiu dessa antes que fosse tarde demais  Eva observou com uma ponta de admirao na voz.
	Entende por que desejo tanto fazer algo por esses meninos?  muito fcil entrar por um caminho errado. Difcil  sair.
	O que vai fazer, Brice?
Ele deu de ombros.
	Se tivesse meios de fazer alguma coisa, no estaria na cobertura da escola.
Eva dobrou os joelhos na altura do peito e abraou-os, pensativa.
	O que fez para estimular as crianas, em Nova York? Ele sorriu com ar nostlgico.
Tentei de tudo. Promovi passeios pela cidade, aluguei um balo para as crianas sobrevoarem o bairro, inventei concursos e shows. Uma vez, num dos espetculos, apresentei um nmero de canto e sapateado. Acho que fiquei ridculo, de cartola e girando uma bengala, mas a galera adorou. Eva sorriu ao imaginar a cena.
Gostaria de ter visto e aposto que no ficou ridculo.
	No tenho tanta certeza, mas participei do show para ganhar a aposta que fiz com um aluno e no tive medo de bancar o palhao.
	Que aposta?
	Ele queria sair da escola, mas disse que continuaria a estudar, se eu me apresentasse. Continuou e tirou o diploma.
	Ento, valeu a pena.
	Valeu.
	Voc conseguiu mudar as coisas por l, Brice.
	Alguma coisa. Parece que as pessoas no querem mudanas. No me iludo. Sei que encontrarei muitos obstculos s minhas ideias, aqui nesta escola. A sra. Worthington sempre foi presidente do conselho?
	Faz tanto tempo que ela puxa os cordis que nem me lembro de quando assumiu o comando. Aps a morte do marido, ela se dedicou inteiramente  escola, com verdadeira obsesso.
	Ela pode ser uma tima pessoa, mas tem ideias arcaicas.
Dirige a escola como se ainda lidasse com uma classe de vinte alunos.
Ele fez uma pausa, colocando outra batata na boca.
	Tenho a impresso de que a sra. Worthington no sabia o que estava se arrumando, quando me contratou para o cargo  comentou.
	Ah, no sabia mesmo!  concordou Eva com uma risadinha.
 Ela foi informada de que obtive bons resultados na escola de Nova York, embora usasse mtodos nada ortodoxos. Deve ter imaginado que poderia me controlar, apesar das minhas "loucuras". E pode, at certo ponto.
Eva concordou, um tanto distrada. No estava mais pensando nos alunos, mas na prpria vida e no que poderia fazer a respeito de sua famlia.
	Estive pensando no que voc disse a noite passada, Brice contou, hesitante.  Acho que estou pronta para comear a fazer certas mudanas.
Brice ergueu as sobrancelhas, curioso, e sorriu maliciosamente.
	Ento, est pronta para entrar na barraca e fazer amor comigo?
Eva sentiu que corava furiosamente.
	No quis dizer isso. Estava falando sobre as mudanas no relacionamento com minha me e minha irm. Acho que voc estava certo quando disse que eu devia me afastar dos problemas das duas.
Brice assentiu.
	No s voc ser mais feliz, como sua irm e sua me tambm.
	Quer escrever e assinar essa declarao?  ela perguntou com sarcasmo.
	Sei do que estou falando, Eva. Mudanas so muito estimulantes.
	O que  estimulante para voc, pode ser apavorante para mim  ela observou.
Ele afagou-lhe a mo com carinho. Como sempre, o simples contato fsico provocou em Eva deliciosas e assustadoras sensaes.
	No precisa ficar apavorada. S comear essa luta sozinha, se quiser. Estarei sempre aqui, para ajud-la.
Na noite seguinte, Eva estava tentando corrigir algumas provas, sentada  mesa da cozinha, mas seu pensamento estava muito longe. Ela s conseguia pensar nos momentos que passara com Brice, na cobertura da escola.
J completara vinte e nove anos e nunca ningum a afetara to profundamente. Nunca, ao sentar-se ao lado de um homem, fora envolvida por onda to forte de sensualidade.
Co levantou-se de onde estivera dormindo e foi at ela, pousando a cabea em seu colo e olhando-a com tristeza.
Eu sei, menino. Sei que sente falta dele  Eva consolou, acariciando-lhe o focinho.
Naquela manh, Co a acordara, latindo e arranhando sua porta. Ela fora obrigada a deix-lo entrar e o cachorro instalara-se em seu apartamento, o que provocara um ataque de cime em Fluffy.
Eva sempre gostara mais de gatos do de que cachorros mas, como Brice, Co j conquistara lugar especial em seu corao.
Ela olhou pela janela, quando ouviu um barulho estranho. Co ergueu as orelhas, completamente alerta. Eva levantou-se e foi at a janela.
Estava chovendo. A chuva despencara com fora, chegando como uma visita indesejvel, completamente inesperada.
Eva ficou olhando o aguaceiro, preocupada com Brice, na cobertura da escola. At ento o tempo estivera cooperando, oferecendo dias ensolarados e noites frescas e estreladas. Ela sabia que ele no desistiria da "greve". Sabia tambm que no estava preparado para enfrentar uma tempestade.
Saiu da janela, imaginando se a barraca era  prova de gua. Mesmo que fosse, ele no levara capa de chuva e roupas apropriadas. Acabaria pegando uma pneumonia.
Comum suspiro, ela tirou uma lata de sopa do armrio e abriu-a. Colocou o contedo numa panela, que levou ao fogo baixo, e dirigiu-se ao armrio do vestbulo. Procurou at que encontrou uma velha capa de chuva, tamanho-nico, que comprara anos atrs. Colocou-a em uma sacola, juntamente com um cobertor, e voltou  cozinha.
Co a observava curiosamente, enquanto ela derramava a sopa quente numa marmita trmica.
 No quero que seu dono fique doente  ela explicou, como se o animal pudesse entend-la  No  por que se trata de Brice. Faria isso por qualquer um.
Embrulhou a marmita e colocou-a na sacola, que pendurou no ombro. Acariciou o cachorro, prometendo-lhe que voltaria logo, e saiu.
Momentos depois, enquanto dirigia, dedicava toda a sua ateno  rua, pois a chuva continuava a cair pesadamente, dificultando a viso. Por fim, parou o carro no estacionamento da escola. Apagou os faris e o lugar mergulhou em absoluta escurido. Mas no saiu do carro.
"O que veio fazer aqui, Eva?", perguntou-se, dominada por sbita indeciso. O que pretendia, trazendo uma capa de chuva e comida para um homem que no devia significar nada para ela?
Pensando de modo racional, concluiu que estava ajudando outro ser humano, como uma boa samaritana. Nada mais, nada menos.
Pegou a sacola, cobriu a cabea com o capuz da capa que estava usando e abriu a porta do carro. Saiu depressa, correndo '< at a escada que levava  cobertura.
O lampio estava aceso, dentro da barraca, como uma estrela solitria num cu cinzento.
Ela ficou observando a cena por algum tempo, pensando se o temporal levara de roldo o pouco que restara de sua sanidade. S um ataque de loucura poderia explicar o fato de ela ter ido ao encontro de Brice, tarde da noite e embaixo de chuva.
Loucura, ou no, ela caminhou para a barraca, dizendo a si mesma que entregaria as coisas e voltaria para casa.
Obviamente ouvindo seus passos, Brice abriu o zper da barraca e colocou a cabea para fora.
	Eva!  exclamou com um sorriso que a fez esquecer tudo o que estivera pensando.  Entre aqui, antes que morra afogada.
Abriu todo o zper e puxou-a para dentro, antes que ela pudesse recusar o convite.
Brice estava sem camisa e a pele de seus ombros musculosc brilhava  luz da lanterna. No espao exguo, os dois ficara muito prximos. Eva sentiu as pernas moles e quis recuar, mas isso era impossvel.
	O que est fazendo aqui?  ele perguntou incrdulo.
Eu trouxe uma capa, um cobertor e sopa quente. No sabia se estava preparado para enfrentar chuva, ento...
Ele estendeu a mo e secou as gotas de gua do rosto dela, num toque sedutor.
"Estou cometendo um erro terrvel", ela pensou em desespero. A tenda era pequena demais, deliciosamente quente, e o aroma almiscarado do corpo de Brice a estava deixando tonta.
Ela no devia ter ido l. Que ele pegasse um resfriado ou at pneumonia. No era problema dela.
Colocou a sacola no cho e tirou a capa, jogando-a num canto, para no respingar gua no saco de dormir estendido a seus ps.
Num gesto impulsivo, Brice acariciou-lhe o cabelo curto. Eva olhou-o e ele no resistiu ao desejo de beij-la. Abraou-a e puxou-a de encontro ao corpo. Ela no tentou fugir. Ergueu o rosto, oferecendo a boca, e ele curvou-se, apossando-se dos lbios midos e entreabertos.
O beijo foi longo e apaixonado. Quando se separaram, Eva gemeu baixinho, como se protestasse, e Brice sentiu seu desejo aumentar. Era claro que ela o queria com a mesma nsia que o dominava.
Brice deixou-se escorregar para o saco de dormir, levando-a junto. Deitou-se ao lado dela e beijou-a no pescoo, enquanto abria os botes da blusa de seda. Tocou-a nos seios, cobertos pelo suti, e ela tornou a gemer, arqueando-se para trs num convite inequvoco.
Ele voltou a beij-la na boca, sugando os lbios carnudos com furor. Comprimindo-se contra ela, deixou-a perceber toda sua excitao.
Nesse momento, o ventou soprou com mais fora, uivando, e o zper da barraca escorregou para baixo, abrindo-se. Eva sentou-se abruptamente, assustada.
Brice sentou-se e ps a cabea para fora.
 No foi nada. S o vento  sussurrou, voltando a deitar ao lado dela.
Mas o barulho perturbara Eva, tirando-a do transe de paixo em que mergulhara. Sentando-se, ela ajeitou o cabelo e fechou os botes da blusa.
Devia estar mesmo louca, pensou, para quase entregar-se ao desejo na cobertura da escola onde era professora respeitada. O que aconteceria, se algum aluno subisse l para ver Brice? Ela perderia a reputao e at mesmo o emprego, quando a histria chegasse aos ouvidos do conselho.
	Brice...  ela murmurou e parou, limpando a garganta.  Isso  loucura. S podemos estar doidos.
	Voc me enlouquece, Eva  ele replicou, afagando-lhe o cabelo, curto como o de um garoto.
Ela o repeliu.
	No posso... Isto no est certo...  disse baixinho, com lgrimas nos olhos.
Ele sentou-se tambm e sorriu docemente.
	Voc tem razo. Acho que as coisas fugiram um pouco do nosso controle. No  a hora certa. Nem o lugar.
	No  s isso  ela observou.  Est tudo errado. No posso ser como voc, uma pessoa impulsiva que faz o que lhe d na veneta, sem medir consequncias. Somos muito diferentes.
Ele a fitou por um momento, sorrindo com ar divertido.
	Temos que ser diferentes, no acha? Voc  mulher e eu sou homem.
	Voc sabe que no  isso o que eu quero dizer  ela murmurou, desviando o olhar. Somos como leo e vinagre.
	Mas leo e vinagre juntos do timo tempero para uma salada  ele comentou.
	Mas no importa quanto se tente mistur-los, mexendo-os juntos, eles acabam separando-se  ela argumentou.
	Pois continuarei mexendo sempre  ele respondeu com um suspiro de frustrao.  No momento, estou um pouco mais do que mexido.
Eva tocou-o no brao.
	Desculpe, Brice. Eu no devia ter deixado as coisas chegarem aonde chegaram. No vou mentir que no quero voc. Eu quero, mas no assim, to rpido. Acho que precisamos nos conhecer melhor.
	Existe jeito melhor de duas pessoas se conhecerem do que fazendo amor?  ele perguntou, sorrindo.  Est bem!
No precisa me olhar assim. Vamos comear tudo de novo.
Que tal jantarmos no meu apartamento, assim que eu possa sair daqui?
Eva meneou cabea negativamente.
	No acho que seja uma boa ideia ficarmos sozinhos, pelo menos por algum tempo.
Ele abriu a boca para protestar, mas desistiu. Ela se levantou, vestiu a capa e abriu o zper da barraca, preparando-se para sair. Parou quando Brice a chamou.
	Vou levar voc at a escada  ele declarou.
	No precisa. Ainda est chovendo muito  ela protestou.
	Querida, a segunda melhor coisa para mim, neste momento,  tomar um banho de gua fria. Quer saber qual  a primeira?
	Definitivamente, no!  Eva respondeu depressa e saiu da barraca.

CAPITULO VII

Eva encostou o ouvido na parede que separava fseu apartamento do de Brice, tentando entender o que estava acontecendo. Parecia que ele estava dando uma festa. Vrias vozes confundiam-se com risos e rudos metlicos.
Ela voltou a deitar-se no sof e abriu o livro que tinha nas mos, ignorando a animao ao lado. Se Brice estava dando uma festa, o problema era dele. Era sbado e ainda muito cedo para reclamar do barulho.
Ela suspirou e passou a mo no cabelo, procurando concentrar-se no que lia. Contudo, era difcil compreender as palavras, quando seus pensamentos estavam voltados para Brice.
Ele finalmente deixara a cobertura da escola ao ser informado de que muitos alunos tinham comeado a faltar s aulas. Durante toda a semana, Eva afastara-se dele, imaginando que seria a melhor soluo. No entendia o que vinha sentindo ultimamente. Seu crebro desligava-se e o corpo parecia produzir o dobro de hormnios, quando Brice estava por perto. Por sorte, ele estivera ocupado toda a semana, no tendo tempo para conversar com ela.
Mas o fato de no terem ficado sozinhos desde a noite em que quase fizeram amor na barraca, no queria dizer que a estranha magia deixara de funcionar entre eles.
Os dois trocavam olhares sensuais e cmplices no refeitrio e a lembrana do que acontecera na cobertura voltava com toda a fora ao corao e  mente de Eva.
Ela assustou-se quando ouviu baterem na porta. Foi abrir e viu Brice, mais sedutor que nunca, com uma cala jeans escura e uma camiseta regata que realava a largura mscula de seus ombros.
	Voc tem milho de pipoca para me emprestar?  ele perguntou.
	Acho que sim  ela murmurou, abrindo a porta para que ele entrasse.
Foi at a cozinha, encontrou um pacote de milho e voltou para a sala, onde ele a esperava.
	Tome.
	Obrigado  ele agradeceu, pegando o saquinho.
Saiu antes que ela tivesse tempo de dizer mais alguma coisa.
Eva fechou a porta, meneando a cabea, confusa. Que diabo estaria acontecendo no apartamento dele?
Acabara de deitar no sof, quando tornaram a bater na porta. Foi atender e deparou novamente com Brice, que lhe sorriu um tanto sem graa.
	Voc tem manteiga?  ele perguntou.
Ela afirmou e foi para a cozinha, voltando logo depois.
	O que est acontecendo?   perguntou, depois de entregar-lhe a manteiga.
	Venha comigo e descubra  ele convidou com ar misterioso.
	Oh, no! No  da minha...
	Venha  ele a interrompeu, puxando-a pelo brao.
Entraram no apartamento dele e Eva admirou-se ao ver cinco rapazes da escola sentados no cho da sala, rodeados por peas de uma motocicleta desmontada.
Johnny Cleavinger saudou-a com um sorriso.
	Oi, srta. Winthrop!
	Oi! Tudo bem?  os outros quatro entoaram.
Eva virou-se para Brice, ansiosa.
	Essa no  sua moto, ?
Ele sorriu, parecendo satisfeito consigo mesmo.
	No. So de uma que comprei no depsito de sucata.
Os garotos passaro as noites de sbado tentando remont-la.
Johnny olhou-a com uma expresso animada que ela nunca vira no rostinho jovem.
	. Depois, venderemos a moto e usaremos o dinheiro para fazer um baile na escola  informou.
Os rostos de seus amigos espelhavam a mesma animao.
	No  legal?  perguntou um deles.
	Claro que os garotos prometeram estudar mais e melhorar as notas  Brice observou.
Eva sorriu-lhe com admirao e ternura. Aqueles garotos estavam predestinados a abandonar os estudos, mas Brice tentava incentiv-los, oferecendo-lhes a oportunidade de fazer algo de que gostavam. Ela encheu-se de orgulho.
	Meninos, continuem trabalhando, enquanto fao a pipoca  Brice ordenou, caminhando para a cozinha.
Eva tocou-o no brao.
	Se no for interferir, nem prejudicar seus planos, gostaria de fazer a pipoca.
	No precisa incomodar-se, Eva  ele protestou.
	Gostaria de ajudar  ela respondeu.  Quero participar.
No entendo nada de motocicletas, mas posso fazer uma tigela bem cheia de pipocas.
Ele entregou-lhe o pote de manteiga.
	Obrigado, ento.
	Uma tigela de pipoca saindo  ela cantarolou, enquanto dirigia-se  cozinha.
Pelo menos, com cinco adolescentes por perto, no teria de preocupar-se com a possibilidade de as coisas entre ela e Brice fugirem do controle.
Enquanto preparava a pipoca, sentia-se feliz por estar ali.
A experincia era muito gratificante. Achou divertido ficar na cozinha, estourando pipoca, enquanto risos e conversas soavam na sala. A voz de Brice e sua risada descontrada a enchiam de ternura.
Ele conversava com os garotos de igual para igual, na prpria linguagem deles, parecendo tudo, menos um diretor de escola.
Daria um timo pai, daqueles que sempre tinham tempo para os filhos. A imagem de Brice brincando com crianas pequenas, a fez com sentir algo delicioso dentro do peito.
Ela sacudiu a cabea com fora, tentando afastar a imagem perturbadora do pensamento. Brice Maxwell poderia vir a ser um timo pai, mas seria um pssimo marido. Ele nunca lhe dera motivos para pensar assim, mas Eva precisava agarrar-se a alguma coisa para proteger-se de seu encanto. No podia alimentar sonhos que no seriam concretizados.
Terminou de estourar o milho e carregou duas tigelas para a sala. Entregou uma a Johnny e outra a Brice.
	Estourei at o ltimo gro  avisou, caminhando para a porta.
Os garotos agradeceram com gritos, algo tpico da idade.
	No v ainda  Brice pediu, pegando-a pelo brao e fazendo-a sentar em uma poltrona, antes de juntar-se aos meninos, no cho.  Sempre podemos aproveitar opinies femininas.
Com um suspiro, Eva sorriu para Co, que foi sentar-se a seu lado.
Durante a hora que se seguiu, ouviu a conversa entre Brice e os garotos. Entendia pouco do que era dito, termos mecnicos e grias, mas ainda assim achou interessante. Os cinco rapazes eram seus alunos e ela nunca os vira to falantes e interessados. Isso a fez conhecer uma faceta diferente de cada um. Brice, com seu olhar maroto, parecia o mais interessado e brincalho de todos.
Cari Witherspoon, um ruivo sardento, no era muito a favor do baile para comemorar o fim do ano letivo..
	Acho bailes muito chatos  comentou.
Johnny olhou-o, contrariado.
	Acha isso porque no sabe danar.
Jeff Majors, um garoto moreno, sorriu.
	Vai ver que ele tem dois ps esquerdos.
Cari olhou-o, carrancudo.
	Ser que sou obrigado a gostar de bailes?  retrucou. 	Que droga!
Bobby Macomb sorriu timidamente.
	Tambm no sei danar  admitiu.  Talvez a srta. Winthrop possa nos ensinar. Todas as garotas sabem danar, no  mesmo, sr. Maxwell?
Seis pares de olhos viraram-se para Eva. Ela gelou, desconcertada.
	Ah, no sei, no. Quero dizer no...  balbuciou.
	 uma tima ideia  Brice exclamou, levantando-se para ligar o aparelho de som.  Tenho todos os tipos de msica. Ritmos latinos, rock, discoteca...
	Rock!  os meninos manifestaram-se, em coro.
	Para comear, vou pr uma seleo de msicas lentas 	decidiu Brice.  Vocs precisam ser mais romnticos. Dana comigo, Eva?
	No. Eu no sei...
	Claro que sabe  ele afirmou, colocando um disco para tocar. Depois, pegou Eva pela mo e obrigou-a a levantar-se, levando-a para um espao livre.  Me acompanhe.
Era um timo danarino, gil e flexvel. Danava como devia fazer tudo em sua vida, com entusiasmo e energia.
Eva, para sua prpria surpresa, sentiu-se  vontade, deslizando nos braos de Brice, na frente dos meninos.
	Venham, vocs tambm  convidou.   s seguir a batida da msica.
Johnny saltou para acompanh-los, fazendo todos rirem, quando comeou a danar, duro com um astronauta andando na superfcie da lua.
Logo todos estavam de p, tentando imitar Eva e Brice. Os meninos mostraram aos dois alguns passos malucos de rock e Eva divertiu-se ao ver Brice exibindo passos complicados de danas do passado, enquanto os rapazes riam, achando tudo muito ridculo. Ela danou com todos, sempre achando graa dos prprios erros e das confuses dos garotos.
Eram quase meia-noite, quando Brice desligou o som e anunciou que era hora de os meninos irem embora. Eles lamentaram, mas obedeceram. Saram, planejando o que fariam no prximo sbado.
Eva preparou-se para ir embora tambm, no querendo ficar sozinha com Brice. No confiava mais em seu prprio bom senso.
	Calma. Aonde vai, correndo desse jeito?  ele perguntou, quando a viu caminhar para a porta.
	Vou para casa. Toda essa baguna me deixou exausta.
Ele andou em sua direo, sorrindo.
	Adorei ouvi-la rir, Eva. Divertiu-se bastante, no?

	Claro. No acredito que danamos aquelas coisas ridculas.
	Sugiro que volte na semana que vem.  Ele olhou-a, ficando srio.  Espero que venha. Sua companhia fez bem aos meninos.
Eva assentiu.
	Gostaria de vir, sim.
Ele deu um passo a frente, tocando no rosto dela.
	Que tal um caf? Se ficar, farei um pouco... pela manh  declarou maliciosamente.
Eva deu-lhe um tapinha no ombro, fingindo zanga.
	Que tal nos encontrarmos amanh, as nove, para tomarmos caf juntos? Na mesa do jardim?
	Do meu jeito parece mais interessante  ele insistiu.
	Mas do meu  mais racional  ela replicou, sorrindo.
Ele tambm sorriu.
	Est certo. Caf, s nove.  Antes que ela percebesse sua inteno, ele a beijou na testa.  Bons sonhos, Eva.
Ela se virou e foi embora. Ao fechar a porta do prprio apartamento, suspirou profundamente, refletindo como era difcil manter-se longe de Brice. Era uma batalha rdua, que ela obviamente estava perdendo.
Precisamente s nove horas da manh seguinte, Eva saiu de seu apartamento e sentou-se no jardim, respirando o suave cheiro da manh. O cu estava azul e o sol comeava a esquentar. Ela no tinha certeza se o dia estava realmente bonito, ou se a expectativa de rever Brice deixava tudo encantador. Antes que tivesse tempo de pensar mais profundamente no assunto, Brice saiu do apartamento e caminhou em sua direo. Levava nas mos uma bandeja com caf para dois.
	Bom dia  cumprimentou, sentando-se ao lado dela.
	Bom dia  ela respondeu, sorrindo docemente.
	Espero que goste do meu caf.  uma receita exclusiva ele explicou, entregando-lhe uma xcara do lquido quente.
Eva tomou um gole, experimentando o sabor, e surpreendeu-se ao sentir gosto de chocolate e canela misturado ao do caf forte.
	Uma delcia  aprovou.
	Fica muito mais gostoso quando servido na cama.
	No acho que servido na cama fique melhor do que j est  ela replicou.
	Voc  uma mulher teimosa, Eva Winthrop.
	Sou uma mulher cuidadosa  ela corrigiu, tomando outro gole do caf.
	s vezes, acho que  cuidadosa demais.
	E s vezes acho que voc  muito impetuoso, Brice Maxwell.
	O que faremos com ns dois?
	Nada. Vamos s ficar sentados aqui, saboreando esse delicioso caf e admirando o dia. Brigar com voc requer muita energia, e estou um pouco cansada da farra de ontem.
Por alguns minutos, eles ficaram sentados, bebendo caf e aproveitando a tranquilidade da manh. Era mais um dia ensolarado da primavera de Pawkinah. O cu era de um tom azul intenso, as rvores revestiam-se de nova folhagem e o ar estava carregado do aroma das flores.
	E to calmo, aqui!  Brice comentou.
	Deve ser muito diferente de Nova York  ela observou.
Brice sorriu.
	No tem comparao. No h lugar algum em Nova York to quieto quanto aqui. Tudo funciona ativamente, o tempo todo.
	Deve ser horrvel.
	No. A vida corrida  excitante. Parece que voc sente a agitao em suas veias. Acontece uma coisa diferente a cada minuto.
	Sente falta dessa agitao?
	Acho que no.  Ele esticou as pernas, preguiosamente.
 O barulho e o movimento de Nova York so timos, mas aceitei trabalhar em Pawkinah porque precisava de uma mudana. Alm do mais, Nova York no  uma boa cidade para se criar filhos.
Eva ergueu as sobrancelhas, surpresa.
	Voc est planejando ter filhos?
	Claro. E voc? No quer formar uma famlia?
	Tenho pensado muito nisso  Eva confessou. Corou ao lembrar-se de sua fantasia, na noite anterior, quando ela o visualizara brincando com crianas.  Eu quero uma famlia, mesmo j tendo muitos problemas familiares.
	Como vo as coisas com sua me e sua irm?
Eva sorriu pensativa, enquanto acabava o caf.
	Estou achando difcil dizer "no".

	Difcil?  s o que voc diz para mim  ele comentou, fitando-a com os brilhantes olhos azuis.
	Voc sabe o que estou querendo dizer  ela replicou, impaciente.  Velhos hbitos no morrem facilmente e eu no sei negar ajuda, quando elas precisam de alguma coisa.
Mas estou comeando mudar.
	Como assim?  ele perguntou, curioso.
	Comprei um blazer novo, sem pensar que minha me pode precisar de dinheiro para pagar a conta de luz.
	Fez muito bem.  importante que pense tambm em voc. Falando em coisas importantes...  ele olhou para o relgio de pulso.  Preciso ir. Um amigo est em Oklahoma City, para uma srie de conferncias. Vou at l visit-lo.
	So trs horas de estrada  ela observou.  Deve ser um grande amigo.
	, sim. Fomos para a faculdade juntos e ramos colegas de quarto. No o vejo h muito tempo.
Ela entregou-lhe a xcara.
	Obrigada pelo caf e dirija com cuidado.
Estava preocupada com ele. Podia ser bobagem, mas no confiava muito em motocicletas.
	Fique tranquila  ele pediu, como se tivesse lido seu pensamento.  Vejo voc amanh, na escola.
Ela concordou e ele voltou para o apartamento, levando a bandeja.
Ela continuou sentada no jardim, imaginando por que Brice tinha tanto poder sobre ela. Ao lado dele, o cu parecia mais azul, as flores tinham mais perfume e o sol, mais calor. Seria s sua imaginao? Ela se levantou, recusando-se a analisar tais pensamentos.
Foi muito mais tarde, naquele dia, que Colleen passou para devolver o vestido azul que pedira emprestado.
	Precisa ser lavado. Derramei um pouco de bebida na parte da frente  explicou, levando-o para o quarto de Eva.
 Queria pegar outro emprestado. A sra. Worthington tem um jantar na quarta-feira e quer que eu v junto, mas no tenho nada para usar.
	Claro. S quero saber qual vai levar  Eva avisou, voltando para o sof, onde descansara at Colleen aparecer.
	Vim aqui, ontem  noite, mas voc no estava  a irm gritou do quarto.
	Estava no apartamento ao lado.  Eva sorriu, recordando as horas que passara com Brice e os garotos.
Colleen apareceu na porta para olh-la.
	No apartamento ao lado? No apartamento de Brice Maxwell? O que foi fazer l?
	Ele convidou alguns alunos, e comeamos a trabalhar em um projeto secreto  Eva explicou com um sorriso misterioso.
	Projeto secreto? Que tipo de projeto?
Eva riu.
	No ser mais secreto, se eu contar a voc.
Colleen deu de ombros e desapareceu no quarto.
	Nossa! Onde comprou este vestido lindo?  perguntou l de dentro, instantes depois.
Eva pulou do sof e foi para o quarto, vendo que a irm tirara vrios vestidos do armrio e estendera-os em cima da cama.
Colleen segurava um de seda cor de pssego diante do corpo.
	 lindo  exclamou, observando-se no espelho.  Onde o comprou?
	Numa loja da Main Street  respondeu Eva, sentindo uma pontada de culpa.
Fora um impulso, um exagero consumista. Ela parara para olhar a vitrine e se encantara com o vestido. Comprara-o imediatamente, sem importar-se com o preo, mas ainda no tivera oportunidade de us-lo. Era um vestido especial, para vestir numa ocasio especial.
	Quero este  decidiu a irm.
	Pegue outro. Esse eu ainda no usei  replicou Eva.
Colleen movimentou-se diante do espelho para fazer o vestido flutuar.
	Mas  este que eu quero. Fica lindo em mim  teimou.
	No  negou Eva com firmeza.  Est reservado para uma...
	Voc nunca vai a lugar nenhum!  a moa interrompeu-a.  E aonde pretende ir, com um vestido to chique?
Deixe eu us-lo, sua chata!
	No.  Eva pronunciou a palavra calmamente, mas com determinao. Pegou o vestido das mos da irm e guardou-o no armrio.  Tenho muitos outos que no me incomodo de emprestar. Pegue qualquer um.
	Mas...
	No insista, Colleen  pediu, erguendo da cama o vestido que a irm devolvera.  Leve este de volta e s o devolva quando estiver limpo.
Colleen encarou-a, assombrada.
	O que h de errado com voc, Eva? Est com problemas na escola?
	No h nada de errado comigo. Acontece que acho que tem obrigao de lavar o vestido. Afinal, foi voc quem o sujou.
	Mas nunca quis que eu lavasse as coisas que me empresta!
 Por que est sendo to implicante?
	No estou sendo implicante, Colleen. Estou sendo justa comigo mesma. Sempre lavo as roupas que voc usa e isso no  certo.  Eva sorriu gentilmente para a irm.  Que tal aquele vestido preto com botes prateados? Fica lindo em voc.
	Esquea. Vou usar alguma coisa minha  a irm gritou, disparando para fora do quarto.  Chata!
Eva seguiu-a at a porta.
	No esquea isto  recomendou, entregando-lhe o vestido azul.
Colleen bufou, exasperada.
	Est bem, eu vou lavar! No sei que bicho te mordeu!
Com isso, foi embora.
Eva suspirou, fechando a porta. No gostava de brigar com a irm. No entanto, naquele momento, depois de fazer valer sua vontade, estava sentindo-se bem. Fora a primeira batalha de uma guerra que provavelmente seria muito longa. Mas ela ganhara.
Queria procurar Brice para contar-lhe sua proeza, mas ele ainda no chegara da viagem a Oklahoma City.
s dez horas, foi para a cama, um pouco preocupada com a demora de Brice em voltar para casa. Era estranho preocupar-se com algum que no pertencia a sua famlia. Passara tanto tempo bancando a tbua de salvao de Colleen e da me que, se a situao perdurasse mais um pouco, acabaria achando que s existiam as duas, no mundo.
Era quase meia noite, quando ouviu o barulho da motocicleta entrando no jardim. Brice estava so e salvo. Ela podia fechar os olhos e dormir em paz.

CAPITULO VIII

Susan Birch, a professora de cincias, sentou-se diante de Eva e Margie, na mesa do refeitric parecendo muito animada.
	 inacreditvel!  exclamou.
Margie olhou-a, curiosa.
	O qu?  perguntou.
Susan abriu a bolsa de couro marrom e tirou uma ma um sanduche.
	Hoje, depois da aula, Angela Baker veio perguntar eu podia passar lio de casa extra. Est interessada em melhorar as notas para poder participar do Clube de Cobertura.
	Angela Baker?!  espantaram-se as outras duas.
	Ela mesma. No  um assombro? A garota no se interessa por outra coisa, exceto maquilagem e garotos.
Margie sorriu.
	Mrito do Clube de Cobertura  comentou.  Os alunos no falam em outra coisa.
	Acho que foi a melhor coisa que aconteceu nesta escola  Susan observou.  Qualquer coisa que motive os jovens a estudar, eu aprovo.
Margie assentiu.
	Eles pegaram fogo, quando que Brice Maxwell anunciou o baile do fim do ano letivo.
Susan desembrulhou o sanduche.
	Isso  timo  declarou.  Acho uma pena nossos estudantes no terem esse baile h cinco anos. Todas as escolas festejam o fim das aulas.
Eva sorriu, lembrando-se das ltimas duas semanas. Cumprindo o que prometera, Brice conseguira fundar seu Clube de Cobertura. Precisara ameaar o conselho com um nova manifestao de protesto, mas conseguira. A novidade deixara os alunos em polvorosa. Depois, o anncio do baile aumentara o entusiasmo ainda mais.
E no foram s aquelas mudanas que Brice resolvera promover. Prometera interceder junto ao conselho administrativo, reivindicando um laboratrio de informtica. Aquelas notcias foram recebidas com alegria, no s pelos alunos, mas tambm pelos professores.
Outras coisas estava acontecendo para tornar Eva feliz. Lentamente, ela afastava a ideia de que tinha de fazer tudo o que sua me e Colleen quisessem. O resultado era uma sensao de liberdade, uma redescoberta de si mesma.
Quando Susan acabou o lanche e saiu da mesa, Margie inclinou-se para Eva.
	Ouvi rumores estranhos, ontem  cochichou.
	Que tipos de rumores?
	Que voc e Brice esto mantendo um caso muito quente.
	Isso  ridculo!  Eva protestou, sentindo o sangue subir ao rosto.
	Dizem que voc passa as noites de sbado no apartamento dele.
Eva comeou a rir, apesar da raiva que sentira no incio.
	Margie, essa  a coisa mais ridcula que j ouvi!  exclamou, ainda rindo.   verdade que vou ao apartamento de Brice todos os sbados...
Os olhos de Margie brilharam de curiosidade.
	Vai l fazer o qu, Eva?
	No vou sozinha, bisbilhoteira! Johnny Cleavinger e quatro de seus amigos tambm vo. Esto reconstruindo uma moto e eu fao papel de me, dando-lhes pipocas e conselhos femininos.
Margie torceu os lbios numa expresso frustrada.
	Eu devia saber que a histria no era to boa quanto prometia. Tudo no passa de fofoca  lamentou com um suspiro desanimado.  Preciso voltar para a classe. Prometi a Billy Slolom que o encontraria depois do almoo para ajud-lo em seu projeto de artes.
Foi quando Margie saiu, deixando-a sozinha, que Eva comeou a pensar em tudo que acontecera nos dois ltimos sbados. No iria contar a Margie, nem a ningum, que se sentira nas nuvens, quando danara com Brice. Nem que, no sbado anterior, quase no tivera foras para separar-se dele. Estivera a ponto de esquecer a voz da razo e entregar-se ao desejo. Mas reagira.
Acabou de almoar e deixou o refeitrio, dirigindo-se  secretaria a fim de verificar se havia alguma coisa na caixa de correspondncia interna. Cumprimentou a secretria com um sorriso amigvel.
	Oi, Ann.
	Oi, Eva  a mulher retribuiu o cumprimento, arrumando algunspapis na mesa.  Sua irm esteve aqui, hoje de manh.
	E?
	Trouxe uns relatrios da sra. Worthington e acho que colocou um recado em sua caixa.
Eva cruzou a sala at as caixas de correspondncia. Abriu a sua e encontrou alguns recados de colegas e um convite. No. Era uma intimao. Avisava que ela devia ir diretamente para a casa da sra. Worthington, depois das aulas.
Ann olhou-a com ar preocupado.
	Tudo bem, querida?
	Tudo certo  Eva respondeu distraidamente.
Acenando para a secretria, saiu e dirigiu-se para sua classe,
pensativa. Por que a sra. Worthington pedira para v-la? Era raro a mulher chamar algum professor para uma conversa em particular. O que poderia ser?
Ainda no conseguira encontrar a resposta, quando tomoi o rumo da imponente casa da presidente do conselho.
A manso dos Worthington, situada no lado norte da pequena cidade, um casaro de trs andares, com varandas em todos eles, no meio de um terreno de cinco mil metros quadrados, coberto por gramados, canteiros de flores e rvores.
Irene Worthington nunca fora de fazer amizade com os professores, por isso Eva ainda no tivera a oportunidade de conhecer a casa por dentro.
Quando chegou, passou pela entrada circular e parou diante da magnfica construo. Desligou o motor, mas permaneceu no carro para acalmar os nervos. Havia algo preocupante naquele convite. Fazia cinco anos que ela lecionava na escola e a sra. Worthington nunca a chamara para uma conversa. Por que, de repente, a mulher queria v-la?
Respirando fundo, Eva saiu do carro e ajeitou a blusa dentro da saia. Aproximou-se da porta da frente e tocou a campainha.
Irene Worthington atendeu ao primeiro toque.
	Ah, Eva, foi muito bom ter vindo  afirmou, abrindo a porta.
Como sempre, a mulher estava impecavelmente vestida, com um conjunto confeccionado com percia para disfarar o corpo obeso. O penteado no deixava um fio de cabelo fora do lugar e o perfume era obviamente francs.
	Por favor, entre  convidou.
Eva entrou no vestbulo, que tinha as mesmas propores de sua sala de estar. No pde deixar de sentir-se intimidada pela atmosfera de riqueza e poder.
Irene apontou para uma porta lateral.
	Por favor, vamos a biblioteca, onde ficaremos  vontade Eva seguiu-a at uma sala onde jamais se sentiria "a vontade". At os livros das estantes, transmitiam frieza.
A dona da casa ocupou uma cadeira atrs da mesa e pediu a Eva que se acomodasse numa outra, em frente a ela. Eva sentou-se, preocupada com a situao. Era evidente  ia ser interrogada. Mas por qu?
Como vo as coisas na escola?  perguntou a mulher.
	Bem, apesar de tudo ficar um pouco tumultuado com a aproximao do fim do ano letivo, as aulas vo indo bem.
	Vou ser direta, Eva. Chamei voc aqui porque ouvi alguns rumores que me deixaram preocupada.
Os mesmos rumores que Margie comentara? Eva sentiu o corao bater mais forte. Haveria uma clusula em seu contrato, que proibisse relacionamentos pessoais entre funcionrios da escola?
	Rumores?  repetiu com lbios trmulos.
Irene Worthington assentiu.
	Uma coisa que me deixou preocupada foi o baile que o sr. Maxwell deseja promover.
Eva esboou um sorriso de alvio.
	Os alunos esto muito empolgados com a ideia.
A presidente do conselho mexeu-se nervosamente na ca deira.
	Claro que os alunos esto empolgados! No tm noc do que  melhor para eles.  Fez uma pausa.  Pensei ter deixado claro ao sr. Maxwell que bailes no so necessrias e nem mesmo desejveis.
Parou de falar por um instante, cravando os olhos penetrant em Eva.
	Ouvi dizer que ele quer reivindicar junto ao conselho a criao de um laboratrio de informtica  prosseguiu. No creio que possamos arcar com tanta despesa.
Eva nada disse, mas imaginou se fora chamada ali para ouvir uma lista de acusaes contra Brice.
	No posso entender por que as metas do sr. Maxwell fogem do padro normal  comentou a presidente.  Vo contra o que realmente  preciso numa escola: ler, escrever e estudar.
Ela levantou as mos num gesto de impacincia e parou de falar por alguns segundos.
	Bem, mas vou lhe dizer por que a chamei aqui  continuou em tom seco.  Soube que voc mora num apartamento pegado ao do sr. Maxwell.
Eva assentiu, um pouco preocupada. Irene inclinou-se para a frente, como se fosse contar um segredo.
	Eva, sinceramente acho que o sr. Maxwell no  a pessoa de que precisamos aqui em Pawkinah. Admito que uma parte da culpa cabe a mim, porque no analisei como devia as qualificaes pessoais do homem. De qualquer modo, no esperava
que uma pessoa com aquelas referncias fosse um rufio.
Eva sorriu ao ouvir a palavra to antiquada.
	O sr. Maxwell no trabalha de modo convencional observou.
Irene tambm sorriu, satisfeita.
	Exatamente o que eu acho. Alegra-me saber que concorda comigo. O que quero de voc  que o vigie, pois soube que leva alunos para casa. Quero saber quem so e o que fazem l. Quero saber, tambm, se ele mantm contato com membros do conselho administrativo.
Eva fitou-a, um pouco confusa.
	No tenho certeza de que entendi. Est pedindo que eu espione o sr. Maxwell?
Eva ficou surpresa com o tom irritado de suas prprias palavras. E foi naquele exato momento que descobriu o que realmente sentia por Brice. Ela o amava, e faria qualquer coisa para ajud-lo.
	Eva, espionar  uma palavra muito forte  a presidente protestou.  Quero o melhor para os alunos e estou convencida de que Brice Maxwell no serve para dirigi-los. S quero saber quais so os planos dele, para evitar qualquer problema que possa causar.
	Se quer conhecer os planos do sr. Maxwell, sugiro que pergunte a ele. No participarei dessa espionagem  Eva respondeu duramente.
A sra. Worthington levantou-se com um suspiro.
	Lamento que no vejamos as coisas sob o mesmo ponto de vista. Sei que tanto pais como alunos tm grande considerao por voc. Mas o mesmo talvez no possa ser dito sobre Brice Maxwell. At logo, sita. Winthrop.
Eva ergueu-se, sabendo que no era mais bem-vinda naquela casa. Com um adeus murmurado, ela se foi. Uma vez do lado de fora, correu para o carro e partiu o mais depressa possvel. Seu nico pensamento era contar a Brice o que acontecera entre ela e a presidente do conselho.
Quando abriu a porta para atend-la, Brice usava bermuda jeans e camiseta. Nas mos, segurava um pano de prato. Eva logo compreendeu que ele preparava o jantar.
	Chegou na hora certa  ele declarou sorrindo.  Vai saborear um dos meus pratos deliciosos, dentro de quinze minutos.
	Preciso falar com voc  ela anunciou, seguindo-o at a cozinha.  A sra. Worthington vai mandar espion-lo. Ela quer demiti-lo, Brice.
Ele colocou o pano de prato em cima da pia e continuou cortando legumes numa tbua de carne.
	Brice, voc me ouviu?
	Ouvi, sim  ele colocou os legumes numa panela sobre o fogo e virou-se para ela com ura sorriso.  E no estou surpreso. Irene Worthington deixou claro desde o comeo que eu no era o tipo de diretor que ela esperava.
Eva comeou a andar nervosamente pela cozinha.
	Precisamos fazer algo, antes que seja tarde demais  comentou.
	O que sugere?  Brice conduziu-a at uma cadeira e obrigou-a a sentar-se.  O que quer que eu faa? Que corte o cabelo e compre ternos austeros? Que cancele os projetos que programei e desista do baile?
	Um corte de cabelo poderia ser um comeo  Eva sugeriu, arrependendo-se em seguida.
No queria que ele fizesse aquilo. O cabelo comprido era uma caracterstica da personalidade que o fazia ser como era. Um homem corajoso e determinado, incapaz de dobrar-se s convenes absurdas.
Ele inclinou-se e apertou-lhe a mo.
	Realmente acredita que cortar o cabelo faria alguma diferena para a sra. Worthington?
	Provavelmente no  Eva concordou.  Mas temos de fazer alguma coisa. No podemos deixar que voc perca o emprego. Talvez, se falasse com ela, se firmasse uma espcie de compromisso...
	Aquela mulher no sabe o significado dessa palavra ele criticou. Foi at o fogo e mexeu o contedo da panela.
	Fiz carne com legumes e molho de cogumelos, uma salada, e comprei po francs. Voc vai ficar e comer comigo?
Eva calou-se por um momento. No queria ir embora at que os dois delineassem um plano de ao contra a sra. Worthington.
	O que posso fazer para ajudar?
	Pode pr a mesa. Os pratos esto no armrio e os talheres na gaveta.
	O que posso fazer para ajud-lo contra Irene Worthington ela explicou.
	Jantar primeiro  ele respondeu, apontando para o ar mrio onde ficavam os pratos.
Enquanto Eva arrumava a mesa, ele acabou o preparo da carne e logo estavam jantando.
	Delicioso  Eva elogiou, depois de experimentar um pedao de carne, coberto com molho espesso. Onde aprendeu a cozinhar assim?
	Sozinho. Uma pessoa solteira tem duas alternativas: ou aprende a cozinhar ou come fora todos os dias.
	Por que nunca se casou?  Eva perguntou, sentindo-se corar, arrependida de ter feito uma pergunta to indiscreta.
Mas ela sempre quisera saber por que nenhuma mulher conseguira prender o corao de Brice.
Ele ficou pensativo por alguns instantes.
	Casamento nunca foi prioridade para mim  ele comeou.  J tive vrios relacionamentos, mas nunca muito srios.
Acho que minha independncia  fundamental. Levei muitos anos para aprender a no depender dos outros.
Eva ouviu a resposta com tristeza. J entendera que um relacionamento entre ela e Brice no daria certo, mas sentira necessidade de confirmar, porque seu corao recusava-se a compreender.
Ela fixou a ateno na comida, escondendo o que sentia.
	Como vo as coisas com sua famlia?  perguntou Brice em tom perfeitamente normal.
Eva sorriu para ele.
	Tudo bem. Na verdade est tudo timo. Muitas batalhas viro pela frente, mas sinto que vencerei a guerra.  Fez uma pausa e continuou:  Falei com mame sobre um clube de bridge. Ela est pensando no assunto.
	J  algum progresso  ele comentou.
	Devo isso a voc  ela declarou.  Se no tivesse me apontado os problemas, eu provavelmente jamais tomaria alguma providncia.
	No acredito nisso  Brice protestou.  Voc  uma mulher inteligente. Mais dia, menos dia, perceberia que as coisas precisavam mudar. Claro que ainda tem medo de arriscar-se, em certos campos, mas vai acabar criando coragem.
	J estou me arriscando  ela replicou, sorrindo.  Estou jantando com voc, e isso  um risco que antes eu no correria.
Os olhos de Brice brilharam, maliciosos.
	Se quer realmente se arriscar, fique depois do jantar para tomarmos um vinho  desafiou.
	Branco ou tinto?  ela perguntou, aceitando o convite.
	J percebeu que esta  a primeira vez que ficamos sozinhos desde aquele dia na cobertura?  Brice perguntou momentos depois, quando sentaram-se no cho da sala.
Eva assentiu e levou o copo de vinho aos lbios, esperando que a bebida acalmasse o tumulto que a proximidade de Brice desencadeara em seu ntimo.
	Por que voc no tem sof?  quis saber, tentando mudar o rumo da conversa.
	Tinha um, em Nova York, mas estava horrvel. Na mudana, decidi no traz-lo. Planejei comprar outro assim que
chegasse, mas ainda no tive tempo. Alm do mais...  Ele passou a mo pelo carpete felpudo.  J sentiu estes pelos macios acariciando seu corpo nu?
	J sentiu um copo de vinho caindo em sua cabea?  Eva brincou. Ficou calada por um breve instante e ento declarou:  Brice, tem de levar mais a srio essa histria de a sra. Worthington querer...
	A nica coisa que quero levar a srio, agora,  voc.
Eva desviou o olhar, tentando escapar do desejo que a invadia de repente.
	Talvez eu possa fazer alguma coisa para ajud-lo  ela desconversou, olhando para a parede a sua frente.
	Eva...  Ele aproximou-se ainda mais e pegou o rosto dela entre as mos.  O problema com a sra. Worthington  meu.
	Eu sei, mas...
Seu protesto foi cortado pelo beijo de Brice. A boca firme estava com gosto de vinho, doce e quente, e Eva respondeu ao beijo, entregando-se  paixo.
Ele tirou o copo de suas mos e colocou-o no cho, perto deles. Ento, abraou-a fortemente, comprimindo-a contra o peito. Beijou-a com furor, deixando-a ofegante. Com graciosa agilidade, deitou-a no carpete, cobrindo-a com seu corpo.
Lenta e carinhosamente, abriu os botes da blusa que ela usava, acariciando a pele macia, enquanto continuava a beijar-lhe a boca com mpeto e suavidade ao mesmo tempo. Eva respondia, beijando-o com nsia, desejando que as mos dele no parassem a deliciosa explorao.
Ela o queria, e no se importava com o que aconteceria depois. No se importava com nada, alm do amor que sentia por ele.
	Minha doce Eva...  ele murmurou, tirando-lhe a blusa.
Com uma rpida parada tirou sua prpria camiseta e voltou a deitar-se sobre Eva.
Ela tremeu, quando os seios nus entraram em contato com os plos do corpo de Brice. Como era bom estar com ele, sentir-lhe a boca exigente, o corpo dominador.
	Eu quero...  ela sussurrou, parando de beij-lo por um instante.
Naquele momento, Co latiu. Foi um latido baixo, mas que os fez saltar surpresos. Eva virou a cabea e viu o animal, que os observava com ar atento.
	Co, saia daqui  Brice ordenou, empurrando-o.
O cachorro, que devia estar achando tudo aquilo uma espcie de brincadeira, pulou em cima dele, pegando um de suas mos na boca enorme.
	Saia!  repetiu Brice.  Pare!
O cachorro atendeu prontamente ao comando, sentando-se ao lado deles.
	Desculpe  Brice murmurou, afastando-se de Eva.  Vou coloc-lo para fora.
Ela meneou a cabea negativamente enquanto sentava, tentando colocar os pensamentos no lugar.
	No precisa  disse num fio de voz.
Vestiu a blusa, sentindo-se envergonhada e sabendo que seria incapaz de continuar o que fora interrompido.
	O que foi?  Brice perguntou, preocupado.
Eva sorriu, sentindo que um certo alvio misturava-se  frustrao.
	 melhor assim, Brice. Ns dois perdemos o controle e poderamos cometer um erro lamentvel.
Ele se virou para o cachorro, fitando-o com raiva.
	Seu burro!
Co baixou a cabea, parecendo concordar. Eva riu tremulamente.
	No xingue o pobrezinho. Ele tem mais juzo que ns dois juntos.
	O juzo dele s funciona quando no deve  comentou Brice, levantando-se e estendendo a mo para ajud-la a ficar de p.
Envolveu-a nos braos.
	J percebeu que me deixa louco?  perguntou, beijando-a no pescoo.
	Brice...  Ela afastou-o.   difcil para mim tambm.
Eu quero voc, mas no desse jeito. No sei o que vai acontecer...
Mordeu o lbio, contendo o impulso de dizer-lhe que o amava. No podia se entregar, sem antes saber o que ele sentia por ela. Sabia que ele a desejava. Mas havia uma grande diferena entre desejar e amar, e ela se recusava a fazer papel de boba.
Brice tomou-lhe o rosto entre as mos.
	Eu tambm no sei o que vai acontecer. Tudo o que sei  que no vou fazer falsas promessas, s para t-la em minha cama. No posso dizer como ser o dia de amanh, nem oferecer nada.
Eva assentiu, subitamente grata, do fundo do corao,  interveno do cachorro.
	Vou para casa  informou, tomando a direo da porta.
 Tenho alguns exerccios para corrigir.
Na verdade, tinha algo mais a fazer. Precisava descobrir se o que Brice tinha para oferecer era suficiente.

Capitulo IX

O que achou?  Eva perguntou a 'Brice, mostrando-lhe o local do piquenique.
	 bonito, mas no sei por que insistiu em vir aqui, se podamos almoar calmamente no meu apartamento  ele argumentou.
Eva sorriu e desembrulhou uma toalha xadrez.
	Porque todas as vezes que comemos em seu apartamento, voc insiste em achar que eu sou a sobremesa.
	No posso fazer nada, se tenho um apetite voraz  ele protestou em tom de inocncia.
	Eu trouxe guloseimas para sua fome de lobo  ela declarou com uma risada.
Ele colocou a cesta de piquenique no canto da toalha e sentou-se no cobertor que tinham aberto no cho.
	Ao menos estamos quase sozinhos  observou, referindo-se a uma famlia que comia em uma mesa prxima a deles. Pegou Eva pela mo e puxou-a para o seu lado.  Nas ltimas duas semanas nos encontramos muito pouco.
	As coisas esto uma loucura  Eva concordou.  A reunio de pais e mestres sempre muda a rotina da escola.
Mas voc pode ficar despreocupado, porque os pais fizeram muitos comentrios favorveis a voc.
	Favorveis?
	A me de Johnny Cleavinger est querendo canonizar Brice Maxwell. No consegue acreditar no progresso do filho.
	Bom, pelo menos as coisas acalmaram-se. A sra. Worthington ainda no se manifestou.
Eva estremeceu.
	Espero que essa no seja uma calmaria passageira.
Ele estendeu a mo e acariciou-lhe o rosto.
	O dia est muito lindo para falarmos de coisas desagradveis  comentou, descendo os dedos at tocar os lbios dela.  Prefiro saber por que tenho vontade de beij-la toda vez que olho para voc.
	Realmente, no sei. Talvez seja uma falha psicolgica. Ele aproximou tanto o rosto, que ela podia sentir sua respirao.
	Sabia que, se um homem  estimulado por uma mulher por muito tempo, sem obter satisfao, pode at morrer?  perguntou.
Se no fosse pelo esboo de sorriso nos lbios dele, Eva poderia pensar que era srio.
	Ouvi essa mesma histria quando tinha dezenove anos  respondeu, entrando na brincadeira.  No acreditei na poca, e no acredito agora.
O olhar de Brice transmitia uma emoo que ela no podia identificar.
	E quem foi esse bandido que tentou aproveitar-se de uma menina inocente?
	O nome dele era Jerry e eu o conheci na faculdade.
Samos juntos durante dois meses, antes que ele encontrasse outra garota inocente que caiu em sua conversa. A ltima coisa que soube dele, foi que casou e tem trs filhas.
	Mas voc ainda no explicou por que me deixa to faminto  ele insistiu,
	J vou dar um jeito nisso  ela disfarou, pegando a cesta de piquenique.
Eva riu da expresso de desapontamento no rosto dele. Depois do almoo, nenhum dos dois estava com pressa de voltar para casa. Ficaram deitados, contando pequenas passagens do passado de cada um e falando dos planos para o futuro. Eva falou da admirao que sentia pelo pai e do grande choque que sofrera com sua morte. Brice, por sua vez, queixou-se da solido que sentira, crescendo como filho nico de pais mais velhos que a maioria.
Ficaram calados e, quando ela o olhou novamente, ele parecia adormecido. Observou-o longamente, deliciando-se com a beleza de seu rosto msculo.
Uma brisa leve soprou sobre eles, brincando gentilmente com a longa cabeleira de Brice. Eva conteve o impulso de acarici-la, inundada de ternura. Quando fora que todo aquele amor tomara conta de seu corao? Essa era uma pergunta para a qual no havia resposta.
Olhou para cima, observando a folhagem da rvore que lhes dava sombra. Nas ltimas duas semanas, desde a noite em que Co os interrompera, quando estavam prestes a fazer amor, ela pensara muito sobre o que Brice lhe dissera.
Ele deixara bem claro que no ofereceria nada duradouro. Era um homem que vivia o presente, aproveitando todos os momentos intensamente, como se fossem nicos. Mas o que ela sentia por ele era uma mistura de respeito por seu trabalho, admirao por seu senso de humor e um amor muito profundo.
Estava pronta para aceitar o que Brice podia oferecer. Queria fazer parte de um momento de sua vida, com a esperana de que um dia ele descobrisse que tambm a amava.
Fechou os olhos e um sorriso formou-se em seus lbios, enquanto ela imaginava um futuro a dois. Sentiu que ia adormecer e no lutou contra o sono.
Quando acordou, Brice estava olhando para ela, to prximo, que sua respirao afagava-lhe o rosto. Havia algo maravilhosc em seu olhar. No era paixo, nem simplesmente desejo. Era algo muito maior. Era amor. O corao de Eva encheu-se de alegria. No fazia mal que ele no soubesse que a amava. Um dia descobriria.
	Dormindo o.sonho dos justos  ele murmurou, beijando-a de leve nos lbios.
Ela se levantou, notando que o sol descia para o horizonte.
	Quanto tempo dormimos?
Ele tambm sentou-se, consultando o relgio.
	Duas horas  informou, sorrindo maliciosamente.  Isso quer dizer que agora haver rumores de que dormimos juntos.
	Infelizmente, esses rumores j existem  ela comentou, comeando a dobrar a toalha.
	Isso a aborrece?  ele perguntou.  O que as pessoas falam de ns a deixa chateada?
	Na verdade, no. J estou acostumada com fofocas de cidade pequena.  melhor irmos para casa, ou voc se atrasar para o encontro com os meninos.
Ele assentiu, recolhendo o cobertor e pendurando-o no ombro.
	Devem acabar a montagem da moto esta noite. Esto trabalhando como loucos para apront-la a tempo.
Eva guardou a toalha na cesta, que ele pegou, e comearam a caminhada para casa. Andavam de mos dadas, com os dedos entrelaados.
	No posso imaginar como  o vero aqui  ele comentou.  Estamos em maio e o calor j  grande.
	E  s o comeo. O vero aqui  bravo.
	O que as pessoas fazem, quando est muito quente?
	O que as pessoas fazem em Nova York, durante o vero?  ela reformulou a pergunta dele.
Brice encolheu os ombros.
	Ficam trancadas dentro de casa.
Ela sorriu.
	Ento, no sabem o que esto perdendo. Pawkinah ganha vida, no vero. Temos sorvetadas beneficentes, churrascos ao ar livre e uma grande comemorao no Dia da Independncia.
Em agosto, temos o aniversrio da cidade, com muitos festejos durante o dia e baile  noite.
Ele apertou-lhe a mo, sorrindo.
	Acho que vou adorar o vero em Pawkinah.
E ela ia adorar t-lo por perto. Colleen e a me sempre aproveitavam as frias escolares para pedir-lhe mil favores. Mas daquela vez seria diferente. Naquele vero, ela se dedicaria  prpria vida e seria feliz. Ela teria Brice.
Quando chegaram ao porto, ele pousou a cesta de piquenique no cho e abriu a caixa de correspondncia. Franziu a testa, olhando para a primeira carta que retirou.
	Brice? Algum problema?
	 de Irene Worthington  ele informou.
Abriu o envelope e leu a carta apressadamente.
	O que diz?  perguntou Eva, aflita.
	 a convocao para a reunio geral da escola, no prximo sbado.  Fixou os olhos nos dela.  Vo decidir permaneo como diretor, ou no.
Aquelas palavras desfizeram o encantamento do dia. Eva sentiu um aperto no corao.
	Oh, Brice, o que voc vai fazer?
	No sei  ele respondeu simplesmente.
Eva parou junto de uma das janelas do apartamento, observando o cu que se cobria lentamente de sombras, naquele entardecer de sexta-feira. Em menos de vinte e quatro hon o destino de Brice em Pawkinah estaria decidido.
A semana parecera interminvel. Ela passara poucos momentos com Brice e no tivera oportunidade de falar com ele sobre a reunio geral.
Ouvira-o sair da garagem com a moto, alguns minutos antes, e acelerar rua abaixo, como se quisesse fugir de algo. Imaginou se ele tambm sentia-se inseguro e temeroso.
Se fosse demitido, certamente deixaria a cidade.
Pawkinah era to pequena que tinha uma s escola. Brice era diretor. O que mais gostava de fazer era ensinar e ajudar os estudantes. Precisava de uma escola, como uma planta do sol. Como no haveria nenhuma, ele teria de se mudar.
Aquele pensamento era inaceitvel para Eva.
Ela deixou a janela e ficou caminhando pela sala, nervosamente. Se ao menos alguma coisa pudesse ser feita para mudar a opinio de Irene Worthington... Se algum falasse com a mulher a respeito da pessoa maravilhosa que era Brice, explicando que as mudanas que ele desejava eram benficas e necessrias...
Ela parou abruptamente. Por que no? Quem melhor do que uma professora que admirava o trabalho de Brice, para falar com a sra. Worthington? Quem melhor do que uma pessoa que o amava, para depor a favor dele? Pegando as chaves, Eva correu para o carro.
Controlou-se para no pensar no assunto, no caminho para a manso dos Worthington. No devia esboar nenhum plano. Tudo o que dissesse  presidente do conselho teria de sair do corao.
Parou o carro na entrada da casa e respirou fundo. Encorajada pela ideia de que os alunos, professores e, principalmente ela, precisavam de Brice, saltou e comeou a andar com passos firmes.
A prpria sra. Worthington abriu a porta.
	Eva!  exclamou surpresa.
	Posso falar com a senhora por um momento?
	Certamente.
A mulher guiou-a at a biblioteca, onde ocorrera a ltima conversa entre as duas.
	Sente-se, por favor  a dona da casa convidou, pondo-se atrs da mesa imponente.
	No, obrigada.
A mulher pareceu surpreender-se outra vez, mas Eva no se importou. Precisava sentir-se forte e em p de igualdade com Irene Worthington.
	O que posso fazer por voc, Eva? Acho que no veio aqui para uma visita social.
	Estou aqui por causa de Brice, ou melhor, do sr. Maxwell.
A senhora precisa reconsiderar sua deciso. Ele  um bom homem e um diretor competente. Percebe o potencial de cada um dos alunos da escola e...
Eva fez uma pausa e apoiou as mos na cadeira a sua frente.
--- Sra. Worthington, o que quero dizer  que os mtodos de Brice podem no ser muito ortodoxos, mas esto funcionando.
	Sei, sei...  a mulher resmungou, em tom de pouco caso.
	Por favor, escute tudo o que tenho para falar  Eva pediu, deixando toda a paixo extravasar em suas palavras.
	Brice criou novo entusiasmo no s entre os alunos, mas tambm entre os professores.
Parou de falar por um instante para engolir o n de emoo que sentia na garganta.
	Brice nos fez enxergar o verdadeiro sentido da escola 	continuou  e entender o papel que os professores tm: cuidar dos alunos como se eles fossem seus prprios filhos.
A sra. Worthington olhou-a com estranheza.
	Diga-me, Eva, voc viria aqui, se no amasse Brice Maxwell? 
Eva sentou-se, chocada. Precisava colocar os pensamentos em ordem.
	Meu amor por ele  to bvio?  perguntou com um sorriso tmido.
Pela primeira vez, Irene Worthington sorriu. Era um sorriso doce, como se ela o houvesse resgatado do fundo da alma.
	Seus olhos a acusam, brilhando como estrelas, cada vez que voc pronuncia o nome dele.
Eva ficou vermelha, mas enfrentou o olhar da mulher com! orgulho.
	Sim, eu o amo, mas no foi apenas por essa razo que vim aqui.  Passou a mo no cabelo, discretamente.  Eu sei que mudanas so extremamente difceis, mas isso no significa que sejam malficas. Seria muito bom se pudssemos voltar no tempo, quando os professores ensinavam o bsico, sem concorrer com outras influncias.
Eva calou-se por um instante, escolhendo as palavras.
	Mas as coisas mudaram e se a escola no mudar, os alunos continuaro deixando os estudos,  procura de coisas mais interessantes  declarou.  Eu amo Brice como homem, mas tenho um profundo respeito pelo sr. Maxwell como diretor.
	Bem, foi um depoimento e tanto. Certamente levarei em conta tudo o que voc disse.
Eva concordou e levantou-se, porque j cumprira sua misso. A sra. Worthington acompanhou-a at a porta.
	Concordo com seu ponto de vista  comentou.  Mas sou muito inflexvel para voltar atrs.
Eva sorriu para ela.
	 to inflexvel que range, como um par de botinas novas.
Com essas palavras saiu, deixando a mulher parada, de boca aberta, certamente no podendo acreditar no que ouvira.
O ginsio estava quase todo cheio quando Eva chegou para a reunio, do dia seguinte. As palmas de suas mos estavam midas e seu corao batia descontrolado,  medida que ela andava no meio da multido,  procura de Brice.
Encontrou-o num canto, conversando com um pequeno grupo de pais. Quando ele a viu, pediu licena e foi em sua direo.
	Oi  murmurou com um sorriso caloroso.
	Oi  ela respondeu, apontando para a porta larga, que dava passagem a um contnuo fluxo de pessoas.  Voc tem o dom de atrair multides.
	Sempre fao o melhor que posso, no palco.
Ela deu uma risadinha.
	Quais so seus planos?  perguntou, ficando sria.
	No tenho planos. Vou ser eu mesmo. Explicarei abertamente e com sinceridade quais so as minhas metas.
Ele fez uma pausa, acenando para um aluno que o cumprimentava  distncia.
	De qualquer forma  prosseguiu  no vou, de jeito nenhum, trair as coisas em que acredito apenas para deixar uma velha senhora feliz.
Eva concordou. No esperava que ele assumisse uma atitude diferente.
Brice fez um gesto de cabea na direo do tablado, onde os membros do conselho e representantes da associao de pais e mestres j se encontravam acomodados.
	 melhor eu ir. Parece que j esto prontos para comear.
	Boa sorte  ela desejou, tocando-o no brao gentilmente, antes de seguir para o seu lugar.
Momentos depois, a reunio comeou com o pronunciamento da sra. Worthington.
.     Como a maioria de vocs sabe, nesta reunio discutiremos a permanncia do sr. Brice Maxwell nesta escola.
Um murmrio correu pela multido, fazendo com que a presidente batesse o martelo na mesa, pedindo silncio.
	O sr. Maxwell elaborou uma srie de programas nas ltimas semanas  continuou.  Seus mtodos, totalmente irregulares, causaram srias dvidas sobre sua eficincia.
Nova onda de cochichos interrompeu-a. Daquela vez ela esperou que o silncio se fizesse naturalmente, o que demorou vrios segundos.
	Ele manda alunos subirem  cobertura no horrio do almoo, e convida-os para irem a sua casa, nos finais de semana  informou em tom seco.  Prometeu aos estudantes que eles teriam um baile, quando sabe que o conselho no aprova esse tipo de atividade.
Parou de falar por alguns instantes, olhando para Brice, que se encontrava a seu lado, na mesa.
	Talvez, antes de continuarmos, o sr. Maxwell queira dizer alguma coisa em sua defesa  concedeu.
Brice levantou-se, mostrando-se mais confiante do que Eva jamais o vira. O silncio pairou sobre todos.
	No vou fazer nenhum discurso em minha defesa. Acho que os resultados que tenho obtido falam por si mesmos declarou, voltando a sentar-se.
A sra. Worthington levantou-se.
	Sr. Maxwell, dediquei parte do meu tempo, esta manh,  tarefa de dar uma olhada nos registros desses resultados e sou obrigada a confessar que fiquei surpresa. Parece que alguns - de seus programas so eficientes para motivar os alunos.
Soaram alguns aplausos, interrompendo-a. A mulher ergueu a mo, pedindo silncio.
	Contudo, no posso contrat-lo para o prximo ano letivo, baseada apenas nesses registros  declarou.  Proponho que permanea aqui como funcionrio em experincia, at o final deste ano, dando tempo ao conselho de tomar uma deciso.
Concorda com isso?
Brice concordou e Eva suspirou, aliviada. Peio menos, no iam despedi-lo arbitrariamente. Faltava um ms para o final das aulas, tempo suficiente para ele provar aos pais e ao conselho que seus mtodos, irregulares ou no, funcionavam.
No momento em que a reunio terminou, Eva dirigiu-se para onde Brice estava.
	Sinto como se tivessem tirado um peso das minhas costas  ele comentou.
	Eu tambm  Eva murmurou, sorrindo.
	Talvez, depois que sairmos daqui, possamos ir a algum lugar, comemorar.
O brilho nos olhos de Brice, mostrava claramente que tipo de comemorao ele estava imaginando.
Ela o encarou, tentando faz-lo entender que gostaria de comemorar do mesmo modo.
Foram interrompidos pela apario repentina da sra. Worthington.
	Tenho de admitir, sr. Maxwell, que at ontem  tarde minha firme inteno era rescindir seu contrato.
	O que a fez mudar de ideia?  ele quis saber, curioso.
A mulher pousou a mo no brao de Eva.
	Ela me fez pensar. Foi a minha casa, ontem, e tivemos uma longa conversa. Voc  um verdadeiro campeo para Eva Winthrop.
	Voc fez o qu?  Brice virou-se para Eva, fixando-a com um olhar frio.
Ela estranhou sua expresso, mas julgou que ele estivesse simplesmente aturdido. Sorriu-lhe, mas Brice desviou o olhar, voltando-se para a presidente do conselho.
	Pensei melhor, nesses minutos desde o final da reunio, e decidi no aceitar sua proposta de um prazo experimental.
Meu pedido de demisso estar em sua mesa, na segunda-feira pela manh.
Eva estremeceu, chocada, e a sra. Worthington arregalou os olhos, atnita.
	Agora, se as senhoras me do licena...  murmurou Brice, afastando-se.
Caminhou com passadas largas para a sada do ginsio.
	Brice!  Eva chamou, correndo atrs dele, abrindo caminho entre as pessoas com indisfarada impacincia.
Mas quando chegou ao estacionamento, a moto dele j desaparecera. Ela correu para o carro, ansiosa por encontr-lo e exigir uma explicao. O que acontecera, para ele mudar to de repente?
Sentiu o corao apertar-se, pressentindo que a resposta poderia mago-la profundamente.

Capitulo X

Brice dirigia a moto em velocidade excessiva, esperando aliviar as fortes emoes que sentia.
Sempre funcionara, no passado. O vento em seu rosto e o barulho potente do motor sempre tinham curado todos os males de sua alma. Mas aquela noite estava sendo diferente. Seu corao estava pesado demais. Mesmo depois de uma hora de corrida desabalada, a dor persistia.
Pensara que Eva tivesse entendido como era importante para ele ser independente. Mas obviamente enganara-se. Ela no o compreendera e enterrara a esperana que ele tivera de continuar vivendo em Pawkinah.
Fez uma curva, decidindo que era hora de voltar para casa. No adiantava continuar rodando a esmo. Nada que fizesse poderia livr-lo da sensao de que fora trado. S lhe restava voltar para o apartamento e escrever a carta de demisso o mais rpido possvel.
Momentos depois, parava no jardim diante do pequeno prdio. Levou a motocicleta para a garagem e comeou a andar em direo a sua porta. Foi quando viu Eva, correndo para ele.
	Brice!  ela chamou, parando a sua frente.  Estava esperando por voc. Precisamos conversar.
 Por qu?  ele perguntou indiferente, procurando a chave da porta no chaveiro.
	Porque preciso saber o motivo de sua demisso.
Ele deu de ombros, continuando a andar. Abriu a porta e entrou. Antes que pudesse fech-la, Eva tambm entrou. Ele suspirou, no querendo dar explicaes. Se ela no sabia o mal que lhe fizera, era porque os dois tinham menos em comum do que ele imaginara.
	Brice...  ela murmurou, colocando a mo em seu brao.  Por favor, me diga o que est acontecendo. No estou entendendo sua atitude.
Ele se livrou da mo dela, pois a mgoa transformara-se em raiva. No conseguia acreditar que ela o deixara cultivar esperanas de um futuro juntos para depois desiludi-lo de forma to desprezvel. Sentia-se como um adolescente bobo.
	Claro que no est entendendo!  ele exclamou. Esse  o problema. Voc nunca entende nada!
	Do que est falando?  ela indagou com genuna surpresa, deixando-o ainda mais irritado.
Ele andou pela sala, evitando olhar para Eva, querendo no desejar apert-la nos braos, esquecendo o rancor.
	Deixei voc entrar na minha vida, como nunca permiti que outra pessoa entrasse. Contei-lhe os problemas que tive com meus pais. Confessei meus erros. Ainda assim, sabendo tudo o que sabe, voc fez algo que no posso perdoar.
	O que foi que eu fiz, Brice?  perguntou Eva em tom suplicante.
	Tentou limpar minha barra com a sra. Worthington.
Por um momento, ela o fitou, sem compreender direito o que acabara de ouvir.
De repente, do emaranhado de emoes que a confundiam, brotou uma raiva violenta.
	Voc  um louco!  exclamou em tom rspido.  Acha, realmente, que fui falar com a sra. Worthington para "limpar sua barra"?
Andou na direo dele, observando-lhe atentamente as feies. Daria tudo para que a expresso de frio desprezo desaparecesse do rosto que adorava.
	Voc est to cheio de remorsos por causa do seu maldito passado, que no enxerga um palmo na frente do nariz. No deixe que recordaes mofadas atrapalhem sua vida.
Ele no replicou, mas seu olhar ainda exprimia raiva e teimosia.
	Fui falar com a sra. Worthington, para faz-la ver que cometeria um grande erro, se despedisse voc. Fui depor a seu favor, como professora da escola e no interceder...
	No h nenhuma diferena entre "depor a favor" e interceder. Mas o que voc fez foi subestimar minha capacidade de resolver meus prprios problemas.
Eva percebeu que nada do que dissesse o faria mudar de ideia. A menos que...
	Brice, fui falar com a sra. Worthington porque amo voc.
Ela prendeu a respirao, esperando ansiosa por uma reao.
Viu-o olh-la com espanto, como se nunca houvesse suspeitado de seus sentimentos.
Brice fechou os olhos por um momento, deixando as palavras de Eva flurem em sua mente, suavizantes como blsamo num ferimento.
Abriu os olhos e fitou-a.
	Eu tambm te amo, mas isso no  suficiente  declarou.
Eva notou que a raiva se esvara dos olhos azuis, apenas para ser substituda por uma expresso de calma resignao que a deixou ainda mais assustada.
	Vive dizendo que somos diferentes  ele observou.  Eu gosto de arriscar, voc no. Sou impulsivo e voc, ponderada. Voc adora resolver problemas dos outros e eu odeio que tentem resolver os meus.
Ele fez uma pausa e meneou a cabea, suspirando.
	Acho que a melhor coisa a fazer  sair daqui e procurar uma escola que esteja preparada para as mudanas que desejo implantar. Preciso ir para uma cidade grande, capaz de acolher minhas ideias.
	E os alunos?  ela perguntou baixinho.  E os compromissos que assumiu com eles?
Ela podia desfiar uma lista de prejuzos que a escola teria sem Brice como diretor. Mas no queria nem pensar no que sua vida perderia, se ele fosse embora.
Ele deu de ombros, impassvel.
	Podem contratar outro diretor, um que se adapte aos padres da sra. Worthington. Os alunos sobrevivero e os professores tambm.
"Mas e eu? Como irei sobreviver?", pensou Eva.
	Est deixando o passado influenciar o presente, Brice, e isso no  justo.
	Est acabado, Eva. Na segunda-feira pela manh minha carta de demisso estar na mesa da sra. Worthington. Em uma semana estarei longe daqui.
	Voc se demitiria se, em vez de mim, Margie Keller,
ou qualquer outra professora tivesse falado com a sra. Worthington?  perguntou Eva.
	No foi Margie. Foi voc.
	Fiz o que fiz porque te amo  ela insistiu, sentindo as lgrimas brotar.
	A mesma desculpa que meus pais usavam. Mas todas as vezes que me ajudavam, roubavam um pedacinho da minha alma. Voc fez a mesma coisa. Acabou, Eva.
Ela desistiu de tentar faz-lo mudar de opinio. Tudo o que precisava fazer era sair dali antes que se desfizesse em lgrimas.
	Partindo, voc estar magoando os alunos, os professores, e a mim tambm  acusou.  Mas o pior de tudo  que estar magoando a si mesmo.
Desatando em soluos, correu para o seu apartamento. Mal vendo por onde ia, foi para o quarto e jogou-se na cama.
As lgrimas no apenas molhavam o travesseiro como tambm inundavam seu corao. Seria mais fcil suportar a dor se Brice no tivesse dito que tambm a amava.
Um amor no correspondido murcharia at secar. Mas, sabendo quais eram os sentimentos de Brice, ela nunca deixaria de alimentar iluses e estaria condenada a uma vida rida e solitria
Pela manh, o sofrimento de Eva no diminura. Na verdade, tornara-se mais profundo e seria contnuo, como a dor de uma doena incurvel. Algo dentro dela ainda acreditava que Brice voltaria atrs em sua deciso, reconhecendo que estava abandonando uma cidade que precisava dele e uma mulher que o amava. Mas quando ela se lembrava da frieza que vira em seus olhos, admitia que estava enganando a si mesma.
Ela ficou a manh toda limpando a casa com verdadeira fria e tentando perceber algum movimento no apartamento ao lado. Logo depois do meio-dia, ouviu Brice sair. Sentou-se no sof, fsica e emocionalmente exausta.
	Ei, Fluffy  chamou, quando a gatinha comeou a roar-se em suas pernas, pressentindo que ela precisava de amor.
Pegou o animalzinho e reclinou a cabea no encosto, fechando os olhos. Tivera a esperana de pela manh acordaria e veria tudo sob um outro prisma, como se tudo o que acontecera no passasse de um pesadelo.
As lgrimas recomearam a rolar. At quando choraria por seu sonho de amor esfacelado?
Pulou do sof, quando bateram na porta. Brice! Talvez ele tivesse pensado melhor e percebido que sua reao fora exagerada. Talvez estivesse chegando para dizer que decidira ficar em Pawkinah e na vida dela.
Colocou Fluffy no cho, ignorando seu miado de protesto, e correu para abrir a porta.
	Ah,  voc  murmurou desapontada.
Colleen entrou, olhando-a com espanto.
	Isso  jeito de receber algum, Eva? Nossa! Voc est com uma aparncia horrvel.
	Tive uma noite pssima  Eva explicou, sentando novamente no sof.
	A mame mandou perguntar se voc pode emprestar a assadeira grande. Quer fazer um bolo para as mulheres do clube de bridge, que amanh vo jogar na casa dela.
	Claro. Voc sabe onde est, no sabe? No armrio perto do fogo.
Colleen desapareceu na cozinha, voltando minutos depois com uma assadeira de alumnio nas mos. Ficou parada por um momento, observando Eva. Ento, sentou-se ao lado dela.
	Voc est bem, mana?
Eva apenas meneou a cabea, com medo dizer alguma coisa e recomear a chorar.
	Eva?  A irm passou-lhe um brao pelos ombros, num gesto de carinho e conforto..
	Oh, Colleen, tenho feito coisas to estpidas!
	Voc nunca faz coisas estpidas. Lembre-se de que sou eu a ovelha negra da famlia.
Aquelas palavras fizeram Eva comear a chorar e rir ao mesmo tempo.
	Nem sempre, irmzinha. Dessa vez fui eu que errei.
Estou apaixonada por aquele louco, aquele cabea-dura!
	Quem?
	Brice.
Colleen olhou-a com expresso de angstia.
	Brice Maxwell? Voc est apaixonada por ele?
Eva concordou, enxugando as lgrimas.
	Sou uma louca, no sou?  lamentou-se.
De repente, Colleen escondeu o rosto nas mos.
	Oh, Eva, estou me sentindo um lixo!
Eva a fitou, curiosa.
	O que aconteceu?

	Fui eu que contei  sra. Worthington sobre as visitas dos alunos  casa de Brice, nas noites de sbado. De certa forma, encorajei-a a livrar-se dele.
	Por que fez isso?  Eva indagou, olhando com incredulidade para a irm.
Colleen descobriu o rosto, corando de vergonha.
	Estava chateada com voc. Lembra-se do dia em que no quis me emprestar seu vestido novo?
	Lembro.
	Sabia que voc e Brice tinham amizade e achei que ele estava enchendo sua cabea, jogando-a contra mim. 
	Colleen...
	Oh, Eva, se eu soubesse que voc o ama, nunca teria feito o que fiz. Desculpe. Fui uma idiota.
Eva chegou mais perto da irm.
	Se voc no contasse, outra pessoa contaria. E ficou bvio, desde o comeo, que Brice e a sra. Worthington no se entenderiam. Ele vai pedir demisso.
	Por qu?
Eva encolheu os ombros.
	Isso no importa, agora. O que importa  que ele vai embora de Pawkinah.
	O que voc vai fazer?
	Sobreviver  respondeu Eva, forando um sorriso.  Tambm posso subir  cobertura da escola e gritar que s descerei quando Brice desistir de ir embora.
Colleen sorriu.
	No, isso no  do seu feitio.  Levantou-se e olhou para Eva com ar preocupado.  Preciso ir. Tem certeza de que ficar bem?
	Claro  Eva respondeu com mais segurana do que sentia.
	Ligo para voc mais tarde, ento. Tchau.
	Tchau.
Quando Colleen saiu, Eva levantou-se do sof e comeou a andar pela sala, imaginando o que poderia fazer para tirar Brice do pensamento.
Caminhou para a janela, quando ouviu um barulho estranho vindo do lado de fora. Viu ura caminho de mudanas parado na frente do apartamento de Brice.
Ele desceu do caminho com passos determinados, e marchou para a porta.
Nenhum discurso teria sido mais eloquente. Todas as esperanas de Eva murcharam.
Ela saiu da janela, passando a mo no cabelo num gesto de desamparo. A dor que sentia era insuportvel. Brice ia partir e ela nunca mais o veria.
Tornou a alisar as mechas curtas, decidindo que precisava de um corte. Mordendo o lbio para impedir as lgrimas de cair, comeou a procurar uma tesoura.

Capitulo XI

Da janela da sala, Brice observava o caminho estacionado na frente do apartamento. Fazia vinte e quatro horas que ele tentava arrumar tudo para a mudana e ainda faltava empacotar muita coisa.
Vira Eva sair para a escola, momentos antes. Achara estranho no ter que ir tambm. Mas j entregara a carta de demisso  sra. Worthington e no tinha mais nada o que fazer na escola de Pawkinah.
Afastou-se da janela com um suspiro. Sabia que precisava continuar a embalar seus pertences, mas se sentia sem energia.
Caiu numa poltrona reclinvel e sorriu quando Co pousou a cabea em seu joelho, pedindo um afago. Acariciou as orelhas do animal, distraidamente.
Por que estava fazendo aquilo? Por que ia deixar uma cidade agradvel e uma mulher maravilhosa, a primeira que o fizera pensar no futuro? Quando dissera a Eva que nada tinha para oferecer a no ser o momento presente, mentira.
Comeara a fazer planos para uma vida diferente e nesses planos sempre a visualizara a seu lado.
Reclinou a cabea e fechou os olhos, desejando que pudesse apagar os acontecimentos dos ltimos trs dias. Se Eva no tivesse intercedido por ele junto  sra. Worthington... Se ela o tivesse deixado resolver seus prprios problemas... Se tivesse confiado...
"Recordaes mofadas"... As palavras de Eva voltaram a sua mente. Ela estaria certa em achar que ele estava deixando
o passado interferir no presente, impedindo-o de ser feliz? Ele teria coragem de fugir da cidade e do amor de Eva?
	Acho que no  murmurou, abrindo os olhos. Co fitou-o com curiosidade, fazendo-o sorrir.  O que acha, amigo?
Brice ia voltar aos seus melanclicos pensamentos, quando algum o chamou do jardim. Levantou-se, intrigado, e foi abrir a porta. Surpreso, deparou com Johnny Cleavinger.
	Oi, sr. Maxwell.
	Oi, Johnny. Por que no est na escola?
	Precisa ir l comigo, sr. Maxwell. Vim para busc-lo.
	Por qu?
	A srta. Winthrop s recomendou que eu no aparecesse sem o senhor.
Brice hesitou apenas por um momento. Ento, fechando a porta atrs de si, acompanhou Johnny, imaginando o que poderia ter acontecido para Eva mandar busc-lo.
Ao aproximarem-se da escola, ele viu professores e alunos aglomerados no ptio da frente, olhando para cima. Ento, entendeu por que Eva o chamara. Entendeu, tambm, por que no conseguira acabar de empacotar suas coisas para a mudana. Ele no queria deixar Pawkinah. No queria deixar Eva.
Olhando para cima, avistou-a na cobertura e seu corao comeou a bater em ritmo acelerado. Ela estava sentada na mureta, usando um vestido que ele nunca vira antes, vaporoso e cor de pssego.
	Eva enlouqueceu  algum declarou a seu lado.
Brice virou-se eu viu Margie Keller.
	Para mim, parece mais lcida que nunca  discordou com um sorriso.
Margie abanou a cabea.
	No. Ela decididamente perdeu o juzo. Mandou Johnny busc-lo, e Frankie Jenkins buscar a sra. Worthington  contou, voltando a olhar para a cobertura.
	Acho que j sei o que ela pretende  murmurou Brice, controlando a vontade de comear a rir como louco.
Ela no fez segredo do que pretende  replicou a professora.  Disse que no descer de l at que voc concorde em ficar e a sra. Worthington rasgue sua carta de demisso.
	 mesmo?
Margie meneou a cabea em desaprovao.
	Eva nunca age impulsivamente. No sei o que est acontecendo com ela nos ltimos tempos.
Brice sabia exatamente o que estava acontecendo. Eva o amava e escolhera aquele modo maravilhosamente louco de proclamar seu amor.
No importava que ela tivesse intercedido por ele. Nada mais importava, a no ser o fato de que ela o amava.
	Se voc me permite, Margie, vou subir e tentar fazer Eva recuperar o juzo.
Margie bateu na testa, incrdula.
	Como sou burra! S agora entendi tudo!  exclamou.
 Voc a fez perder o juzo e agora...
	 isso a. O amor faz dessas coisas.
Com um sorriso radiante, Brice correu para a escada que o levaria  cobertura, e aos braos de Eva.
	No diga nada!  ela ordenou no instante em que o viu.  Me escute, antes de dizer qualquer coisa.
Ele concordou, feliz em poder olhar para ela novamente. Estava mais linda e desejvel que nunca. Os olhos verdes cintilavam como pedras preciosas e o cabelo, incrivelmente curto, dava-lhe um ar travesso de criana. Mas nada havia de infantil no corpo sensual, cujas curvas o vestido de seda acentuava.
	Brice, voc no pode virar as costas e fugir  ela comeou.  Acendeu uma fogueira em cada um de ns, alunos e professores e, se for embora, o fogo morre.
Ela se calou por um instante, fitando-o com mgoa.
	Desculpe se minhas atitudes o desagradaram. No tive a inteno. Mas, por favor, no deixe que meus erros prejudiquem a escola. Fique, Brice. Pawkinah precisa de voc.
Brice andou at ela e com uma das mos tocou-lhe o cabelo.
	Andou brigando com a tesoura, outra vez?
Eva baixou os olhos, embaraada.
	Tive um dia pssimo, ontem.
	Quando nos casarmos, vai tentar cortar meu cabelo tambm, toda vez que ficar deprimida?
	No, eu nunca...  Ela interrompeu-se bruscamente, percebendo o que Brice dissera.  Quando nos casarmos?
Ele confirmou e abraou-a, apossando-se de seus lbios num beijo intenso.
	Oh, Eva  murmurou.  Quase cometi um erro terrvel.
Quase no percebi como preciso de voc em minha vida.
Ela no podia acreditar no que estava ouvindo. Nunca fora to feliz. Achando que ia explodir de alegria, puxou a cabea de Brice para baixo para colar a boca na dele.
	Precisamos casar o mais depressa possvel  ele comentou, quando o beijo acabou.
Eva acariciou-lhe o cabelo comprido, fitando-o com adorao.
	Por qu?
Ele sorriu maliciosamente.
	Ainda acho que um homem pode morrer, se a mulher o excitar demais, sem satisfaz-lo. E sinto vontade de t-la em meus braos, na cama, cada vez que nos beijamos.
Eva riu.
	Ento, temos de comear a planejar o casamento, bem depressa  concordou.  No quero ser a culpada de sua morte prematura.
Comearam a beijar-se outra vez, mas separaram-se apressadamente, quando ouviram passos de muita gente subindo a escada.
Eram os alunos, que tinham ido juntar-se a eles, liderados por Johnny Cleavinger.
	Srta. Winthrop, se isso  um protesto contra a demisso do sr. Maxwell, queremos ajudar.
Eva e Brice ficaram olhando, espantados, enquanto meninos e meninas continuavam a subir, juntando-se a eles. No demorou para que um grande ajuntamento ocupasse todo o espao da cobertura.
	Eva!  algum chamou.
Eva se virou e viu Colleen correndo em sua direo.
	Acabei de chegar e soube o que voc estava fazendo.
	A irm sorriu com evidente admirao.  No acredito que esteja desafiando a sra. Worthington!
	Estamos. Brice e eu.  declarou Eva.
	Vou ficar aqui para dar-lhes apoio.
	E seu emprego, Colleen?  Eva perguntou, preocupada. 	Quando a sra. Worthington a vir aqui, a demitir.
Colleen deu de ombros.
	No ser a primeira vez que perco um emprego. Pelo menos desta vez  por uma boa causa  declarou, sorrindo.
	Continuo achando que esse vestido fica melhor em mim.
Eva riu e abraou-a.
	A sra. Worthington est chegando!  um aluno avisou, olhando para baixo.
Todos fizeram silncio, esperando a mulher subir  cobertura. Ela chegou, por fim, ofegante, e encaminhou-se para Brice e Eva.
	Bom dia  cumprimentou, olhando em volta, obviamente espantada com o nmero de pessoas ali reunidas.  Vocs dois sabem mesmo como organizar uma greve.
	Sra. Worthington, estamos aqui para demonstrar nosso apoio ao sr. Maxwell  Eva comeou a explicar.  No queremos que ele seja demitido. Queremos que termine o ano letivo e assine um contrato para o ano que vem, sem qualquer restrio aos seus mtodos.
Houve um longo silncio, enquanto a presidente do conselho examinava Brice com expresso avaliadora.
	E isso  o que voc quer?  ela perguntou.
Ele assentiu e ela abriu a bolsa, tirando a carta de demisso.
	Ento, presumo que queira rasgar isto?
Brice concordou.
A mulher suspirou e olhou para os alunos, que acompanhavam a cena com ateno.
	Fui recentemente informada de que sou to rgida quanto um par de botinas novas  declarou, olhando para Eva, que corou. Virando-se para Brice continuou: s vezes preciso ser.
	E s vezes eu preciso ser eu mesmo  ele replicou com um sorriso.
	Brigaremos  ela avisou  e nem sempre o senhor sair vitorioso.
	Nem a senhora.
A sra. Worthington riu.
	 um bocado impertinente, sr. Maxwell.
	Sou, sim.
	Mas parece que tem o poder de despertar lealdade nas pessoas com quem trabalha. Portanto, deve estar fazendo alguma coisa certa.
Irene Worthington fitou-o por um longo momento e rasgou a carta de demisso em vrios pedaos.
	Mandarei outro contrato para o senhor assinar,  tarde.
 Apontou para os alunos.  No acha que j est na hora desses garotos voltarem para as classes? No se esquea de que administra uma escola, sr. Maxwell, no um... um parque de diverses.
Virou-se, caminhando para a escada. Antes de descer, parou e olhou para Colleen.
	Voc no vem? Temos muito trabalho a fazer.
Sem esperar pela resposta, comeou a descer e Colleen correu para alcan-la.
No momento em que as duas desapareceram, o entusiasmo tomou conta das crianas, que se puseram a bater palmas e gritar o nome de Brice.
	Est bem, galera. J chega  ele ordenou, acalmando os nimos.  Voltem para suas classes. Ouviram o que a sra. Worthington disse: administro uma escola.
Em poucos minutos os estudantes desceram, deixando Brice e Eva sozinhos.
	Onde estvamos, quando fomos interrompidos?  ele perguntou, puxando-a para os seus braos.
	Acho que concordvamos em apressar o casamento ela respondeu, enlaando-o pela cintura.
	Eu te amo, Eva  ele murmurou com voz embargada de emoo.	i
	Eu tambm te amo  ela afirmjou com lgrimas nos olhos.
 Pawkinah precisa de voc, mas eju preciso muito mais.
Brice encostou os lbios nos de|a num beijo terno, cheio de promessas de um futuro feliz. Quando finalmente acordaram do transe, ele suspirou, olhando-a dom doura.
	Temos mesmo de voltar ao trabalho?
	Receio que sim, senhor diretdr.
Juntos, andaram at a escada. Ajites que ela comeasse a descer, ele a fez parar.
 Eva, alguma vez passou a noitej de npcias fazendo amor numa banheira cheia de espuma?
	No  ela respondeu com u}na risada.  Mas tenho um pressentimento de que isso est escrito no meu destino.
	Pode crer que est  ele garantiu, olhando-a com indisfarvel desejo.
	Se no parar de me olhar desse jeito, serei a primeira
mulher a morrer por excesso de estmulo e falta de satisfao.
Com uma gargalhada exuberante, Brice pegou-a pela mo e comearam a descer.

EPLOGO

Feliz  o casamento que o sol prestigia  Colleen declamou ao entrar na classe que estava servindo de vestirio para Eva. Eva sorriu nervosamente para a irm.
	Esperava um temptral ou um furaco. No posso acreditar que Brice tenha concordado em realizar nosso casamento num dia normal, perfeitamente comum, de vero.
Colleen riu.
	Seria mesmo de esperar algo fenomenal. Brice chegou em nossa cidade como um p-de-vento, trazendo muita agitao. Os fofoqueiros de Pawkinah nunca tiveram tanto assunto.
Eva concordou e virou-se para o espelho, observando atentamente seu reflexo, pela ltima vez. Felizmente, no usara a tesoura num momento em que ficara muito nervosa, naquela manh. O cabelo crescera um pouco e tomara jeito, de modo que pudera ser arrumado sob o vu preso pela grinalda de prolas.
O vestido era bonito e de modelo tradicional, com o corpo de rendas e a saia de cetim. Brice sugerira que ela usasse um traje diferente, de qualquer cor, menos branco, e curto, mas Eva agarrara-se aos seus valores ultrapassados e preferira um vestido convencional.
Brice... O corao de Eva parecia querer explodir, quando ela pensava que em menos de uma hora seria esposa de Brice Maxwell. Quando ela poderia imaginar que aquele estranho petulante, que um dia batera em sua porta por engano, chegaria a ser a pessoa mais importante de sua vida?
Nos ltimos dois meses, desde que Brice lhe propusera casamento, eles tinham vivido numa onda de alegria e excitao. Ocorreram brigas, naturalmente, mas todos os desentendimentos tinham acabado em beijos quentes e apaixonados.
Eva olhou para Colleen, que estava linda como uma flor, em seu vestido azul de dama de honra.
	Estou bem? - perguntou, preocupada.
	Oh, Eva, voc est lindssima!  a irm assegurou.
 Vi seu noivo, alguns minutos atrs. Simplesmente magnfico!
	Ele no vestiu jaqueta de couro ou algo parecido, no
?   Eva quis saber, ansiosa.
Colleen meneou a cabea negativamente.
	No, nada de jaqueta de couro, apesar de eu ter adorado as contas coloridas que ele tranou no cabelo.  Deu uma risada ao ver a expresso de Eva.  Estou brincando, sua boba.
	Est de smoking?
	Como qualquer noivo que se preze. Lindo de morrer e nervoso como um estudante em dia de prova. Ah, esqueci de dizer. O ginsio est lotado.
Eva assentiu. Todos os alunos tinham afirmado que no perderiam o casamento, de modo que Brice achara melhor realiz-lo no ginsio da escola, onde todos ficariam confortveis.
Mas s de pensar naquele lugar enorme, lotado, Eva sentiu o estmago apertar-se nervosamente. Talvez tivesse sido prefervel escolher um lugar mais calmo. Ela afastou a ideia no mesmo instante. O relacionamento de Brice com os alunos era uma das coisas que ela mais admirava.
Ele achara importante que os estudantes contribussem para a festa e os rapazes e meninas tinham passado toda a semana confeccionando flores de papel, decorando o ginsio, deixando-o adequado para uma cerimnia nupcial. Algum bateu na porta.
	Est na hora  avisou uma voz feminina.
Eva olhou para Colleen, quase em pnico.
A irm abraou-a.
	Voc se sair bem, mana. Espero que faa tudo certo para que eu saiba o que fazer, quando chegar minha vez.
	E mame? Gostou do vestido que mandou fazer? Nem tive tempo de falar com ela.
	Ela est muito bonita e acompanhada.
	Acompanhada?
	Veio com o irmo de uma das amigas do jogo de bridge, que  vivo e est procurando uma esposa.
Eva riu. Tudo estava muito bem em seu mundo.
Minutos depois, ela se encontrava parada no fundo do ginsio, observando os componentes do cortejo tomarem seus lugares. Olhou em volta e viu que o ginsio fora transformado numa igreja encantadora, digna de um conto de fadas.
Havia flores de papel por toda parte, pendendo das paredes e do teto como cordes, subindo pelas traves em arranjos artsticos, e espalhadas pelo cho.
Quando a marcha nupcial comeou, ela deslizou pela passadeira vermelha estendida no piso encerado, ouvindo os murmrios admirados da multido.
Brice, muito alto e bonito, esperava-a no altar improvisado, olhando-a com emoo to profunda que ela prendeu o flego por um instante. Era como se tivesse medo de respirar, achando que acordaria e descobriria que tudo no passara de um sonho.
Estava chegando ao altar, quando viu algo inusitado. Sentado ao lado de Brice, com uma gravata borboleta no pescoo, mais feio que nunca, Co segurava na boca a cestinha com as alianas. Parecia contente, como se pudesse entender que Brice, seu grande amigo, encontrara o caminho da felicidade.
Todas os receios de Eva, todas as dvidas, desapareceram na onda de alegria que se formou dentro dela.
Brice continuava imprevisvel e louco. Era o mesmo irreverente que contagiara a escola e a cidade com seu entusiasmo. O mesmo Brice que levara algo novo e maravilhoso para a vida dela: amor.


FIM

